quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O ENTORPECENTE DA CERTEZA: Por Bruno Malheiro


As linhas retas compõem o nosso imaginário com tanta expressividade, que nossas consciências andam cada vez mais contaminadas de retidão. Ora como metáfora, ora como expressão geométrica, elas sempre nos indicam caminhos, cristalizam certezas e acomodam – de forma mentalmente inteligível – regras de conduta, que se aprendem na família, na escola, na igreja...
Mas as linhas retas, além de indicarem um caminho coerente a seguir, também servem para dividir lados, níveis e tantas outras coisas. Sempre algo está abaixo e acima, ou de um lado e de outro de uma linha reta. Não há como fugir dos limites, das separações. Por elas dividimos o mundo, partimos nossa imaginação, acomodamos nossa indignação em polos contrários e até mesmo simplificamos nossos sentimentos em antagonismos maniqueístas.
Talvez tenhamos aprendido com nossos colonizadores a ver o mundo partido, dividido entre o bem e o mal, o homem e a mulher, o certo e o errado, o mito e a verdade, a natureza e a sociedade, o passado e o presente, o amor e o ódio, o civilizado e o selvagem. E com eles também aprendemos a desenhar a linha que divide essas partições. Mas o ato de dividir, é bom que se lembre, nunca escapa do apego às nossas referências, isto é, sempre partimos as coisas tomando nossa imagem de mundo como o princípio da divisão. O que é reto para nós é, em si, uma imagem de mundo, um desenho de uma linha que nos põe de um lado e põe aquilo que não se assemelha ao que acreditamos ser o sentido correto, do outro lado.
Lógico que se as linhas retas têm o poder de dividir, elas não são apenas as imagens de escolhas individuais de comportamentos – seu desenho é, em si, um ato político. Desenhamos nossos limites, assim como governos constroem muros. Entretanto, como toda decisão política, a arte de construir linhas retas é um exercício desigual. Nem todo mundo consegue influenciar a decisão alheia com o desenho de suas linhas.
No nosso mundo ocidental, os grandes monopólios de mídia andam há tempos construindo as linhas que definem o que se pode e o que não se pode ver, o que pode existir e o que simplesmente não existe – por não aparecer na imagem de mundo impressa nos rabiscos da reta desenhada pelos veículos de impressa.
As constituições constroem as linhas retas de cidadania. Nascer dentro dos limites de um Estado-Nação define o código de existência das pessoas. Se alguém, por algum motivo, está fora do seu país de nascimento, dependendo de sua condição, pode se tornar uma pessoa indesejada, extraditável ou, até mesmo, matável.
As políticas de desenvolvimento são sempre, antes, um projeto de criar uma linha reta ao dito progresso. Abaixo da linha, entretanto, geralmente estão populações inteiras e suas cosmologias, a quem é reservado o direito de não existir.
Como arte de dividir, desenhar linhas retas virou a principal ocupação das políticas de segurança. À polícia, por exemplo, cabe desenhar as linhas dos viventes: quem são os suspeitos e quem são os mocinhos; onde estão os que merecem viver e onde estão os que podem morrer. Estereótipos de todos os tipos influenciam de que lado as pessoas estarão.
Diante das doses alopáticas diárias de linhas retas – que se fixam no imaginário pela expressão dos polos que dividem –, as pessoas vão acomodando, de modo variado, todas essas linhas para construírem seus próprios caminhos corretos. As superposições de percursos retilíneos, vindos da TV, da Igreja, da Família, produzem uma overdose coletiva de retidão estimulada pelo entorpecente da certeza.
É assim que em frente à TV, na hora do jornal, logo depois de voltar da igreja, uma senhora, de semblante sóbrio e com carisma a aflorar pelo sorriso, comemora a morte de mais um bandido em uma chacina qualquer. Estar do lado certo da linha reta garante a ela o conforto em seu coração do bem, sedento de ódio e sangue.

“Talvez tenhamos aprendido com nossos colonizadores a ver o mundo partido, dividido entre o bem e o mal, o homem e a mulher, o certo e o errado, o mito e a verdade, a natureza e a sociedade, o passado e o presente, o amor e o ódio, o civilizado e o selvagem. E com eles também aprendemos a desenhar a linha que divide essas partições. Mas o ato de dividir, é bom que se lembre, nunca escapa do apego às nossas referências, isto é, sempre partimos as coisas tomando nossa imagem de mundo como o princípio da divisão”, [...] leia mais »»» https://goo.gl/qRXKp2

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