quarta-feira, 16 de novembro de 2016

BREVE MEMÓRIA DO PROFESSOR JEAN HÉBETTE










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Damião Solidade dos Santos[2]

Em 1988 com 13 anos de idade presenciei junto com meus familiares agricultores/as a fundação do Centro Agrário do Tocantins (CAT), que depois passou a ser Agro-ambiental. Lá estava o Professor Jean Hébette no meio das lideranças sindicais rurais e professores/as.
É no âmbito do CAT e, na condição de jovem camponês que participo em 1993 do I Encontro de Jovens evento nasce a ideia de criação de uma Escola Agrícola. Em 1995 através da Associação dos Pais da Escola Família Agrícola (APEFA) fizemos as primeiras articulações com os órgãos públicos em Belém. Na UFPA fomos acompanhados a seu pedido pelo Professor Raul Navegantes. Ficamos hospedados na sua Casa e como base o Escritório do CAT  na Avenida José Malcher nº 128.
Jean morou em Belém na Travessa Mercedes nº. 7 - Bairro São Brás (uma das Casas dos Padres Oblatos - OMI). Espaço que conviveu por muitos anos com padre francês Alfonse Flohic (economista mestre dos cadernos de gestão e das análises de conjuntura fé e política). A casa de Jean sempre hospedou e acolheu eventualmente agricultores/as e dirigentes das organizações vinculadas ao CAT. Nos últimos anos serviu de seu escritório e lugar de reflexão e trabalho com seu grupo de pesquisa.
Jean na qualidade de coordenador do Centro Agro-ambiental do Tocantins (CAT) colaborou diretamente com a Escola Família Agrícola (EFA) da Região de Marabá desde o surgimento da ideia, e durante seu funcionamento e consolidação:
·         Deu apoio para o funcionamento da Comissão de Articulação (1993 – 1995);
·         Mediou a obtenção de recursos financeiros para os primeiros anos de funcionamento (1995 – 1997) através da ONG inglesa Cristian Aid;
·         Através da Associação dos Pais da Escola Família Agrícola (APEFA) apoiou nas articulações com os órgãos públicos em Belém (1995) no sentido de obter a certificação e reconhecimento da EFA;
·         Estabeleceu contatos com a ONG belga Solidariedade Internacional dos Movimentos Familiares de Formação Rural (SIMFR), visando a construção dos prédios da EFA (1997), o projeto original não se consolidou, mas em 2001 e 2002 a SIMFR, através da União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil (UNEFAB) apoiou financeiramente a FATA/EFA;
·         Articulou o primeiro convênio com a Secretaria de Estado de Educação do Pará (SEDUC), ato que reconhece oficialmente a Pedagogia da Alternância (1998 – 1999), contou com apoio do casal Violeta e João de Jesus Loureiro;
·         Articulou recursos financeiros da Campanha da Fraternidade da Bélgica para a instalação na FATA/EFA de uma Biblioteca voltada para jovens rurais promovendo a  aquisição de equipamentos e livros (2004);
·         Apoiou e sempre esteve atento às reformas dos prédios da FATA/EFA: o Sítio e o Centro de Convivência, participando da última por ocasião dos 20 anos da FATA/CAT.
A partir de 2001 quando diminuiu sua atuação junto a FATA, sempre visitava para trocarmos notícias. Dormia em simples quarto cheio de livros e de um rico acervo de pesquisa. Ele humildemente utilizava o espaço do mestre Afonso. O último contato físico se deu em 2009 em Marabá onde participou de uma sessão de formação na Especialização de Educação do Campo.
Jean retornou definitivamente para a Bélgica a sua terra natal, no dia 17 de abril de 2013. Para enfrentar seus problemas de saúde, ficou na Comunidade de Oblatos em Barvaux. Alguns amigos/as do seu grupo de pesquisa mantêm contatos frequentemente (em especial Edma, Raul e Gutemberg).
A partir de 2013 no processo de retomada do funcionamento da EFA propomos para a Secretaria Municipal de Educação de Marabá (SEMED) a criação da EFA de Ensino Fundamental “Prof. Jean Hébette”, que na prática é uma Escola Camponesa com objetivo de oferecer Educação do Campo para os/as agricultores/as familiares. Esta homenagem se justifica pela relação solidária que o referido pesquisador manteve durante quatro décadas com os camponeses/as da região.
Dia 11 de novembro de 2017 fez sua última cruzada. A nós todos/as que estamos por aqui na Terra, cabe a responsabilidade de seguimos a serviço da classe camponesa...
Lembrar de Jean é também recordar o programa CAT vinculado aos STR´s e a UFPA, tendo como base inicial a FATA e o LASAT funcionou durante dez anos proporcionando a classe camponesa uma nova proposta de assistência técnica e pesquisa-desenvolvimento. Trabalho este que contribuiu para: a fundação da Cooperativa Camponesa do Araguaia Tocantins (COOCAT), em 1992; criação do Centro Agropecuário (CAP), em 1994; fundação da Escola Família Agrícola da Região de Marabá (EFA), em 1996.
            Os anos que se seguiram a esta posse simbólica de um espaço de trabalho e de estudo, de propriedade privada, porém de uso comum, viram se afirmar à autonomia daquele campesinato. Explodindo com a estrutura inicial de uma Fundação Agrária, a FATA, e de um Laboratório de Pesquisa, o LASAT, e atendendo às necessidades do homem do campo criou, dentro do Programa, uma cooperativa, a COOCAT, e abrigou uma escola alternativa para jovens agricultores, a Escola Família Agrícola, a EFA (HÉBETTE e NAVEGANTES, 2000, prefácio).
Sintamos a fala e a presença espiritual de Jean em nosso meio:
A consciência dos posseiros por seus direitos, o sentimento de dignidade das mulheres, a coragem de enfrentar o grileiro naqueles anos de contínuos conflitos no Sudeste do Pará foram uma das maiores experiências de minha vivencia, de que me lembro. Quase casualmente, e como uma dessas armadilhas do destino, tinha entrado em 1974 na vida acadêmica. Mesmo assim, continuavam participando de reuniões, de seminários, de debates como posseiros em comunidades de base e em sindicatos do Sudeste e Sul do Pará. Progressivamente, minha reflexão toda se voltava para essas regiões do Pará e para estes trabalhadores, tentando descobrir e entender como era a vida do que me parecia um ‘novo campesinato amazônico’. Um campesinato, sim, na secular tradição camponesa, mas socialmente reproduzido de forma original, sem igual, no Sudeste do Pará e ao longo da rodovia Transamazônica. Convivi muito com esses homens e mulheres, não em longos períodos de observação participante, nem levantamentos sistemáticos como no início de minhas pesquisas, mas conversando, trocando idéias, participando de reuniões, e refletindo sobre a vida, criando amizades, que perduram até hoje. Aprendi, nestes contatos, muito mais do que pude escrever. Perdi aquele distanciamento que tanto se fala nos livros científicos. Sonhei, até. Percebi que, além e apesar dos conflitos, do latifúndio em expansão, dos Grandes Projetos, estava se construindo e consolidando, a duras penas, este novo campesinato. De novo quase que casualmente, fui convidado a dar, de forma mais concreta e imediata, minha contribuição de pesquisador universitário. Nova etapa de minha aventura intelectual e militante. Embarquei numa proposta de cooperação franco-brasileira para a ‘pequena agricultura’, hoje chamada ‘agricultura familiar’, que resultou na criação do projeto Centro Agro-ambiental do Tocantins (CAT), em parceria entre Sindicatos de Trabalhadores Rurais da região de Marabá e minha Universidade, o que me absorveu de 1985 até o ano 2001. A criação desse projeto e o envolvimento de militantes sindicais nem sempre foram bem recebidos por certas lideranças regionais, pois visava a contribuir não pelo lado político-contestatório dos problemas agrários, mas pelo lado tipicamente profissional da produção, da inovação tecnológica, da assistência técnica, da gestão agrícola do meio ambiente, e dos fundamentos sociais da melhoria socioeconômica: cidadania, participação da mulher na produção e na vida sociopolítica, prática cooperativa, valorização do diálogo critico sobre experiências agrícolas, comercialização. Forneceu-me um campo fértil  para análise das relações de parceria entre produtores, pesquisadores e técnicos, um observatório privilegiado para conhecer as práticas sindicais. Fez-me sentir o cruel distanciamento das instituições oficiais em relação àquele campesinato (HÉBETTE, 2004, p. 12 – 13, Vol I).

REFERÊNCIAS


HÉBETTE, J; NAVEGANTES, R. S. (Org.). CAT – Ano décimo: etnografia de uma utopia. Belém: EDUFPA, 2000. 299 p.

HÉBETTE, J. Cruzando a fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia. Belém: EDUFPA, 2004.  4 v.



[1] Homenagem em 16 de novembro de 2016.
[2] Professor na Rede Ensino da Secretaria Municipal de Educação de Marabá (SEMED) e Extensionista Rural da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (EMATER-PARÁ). dsolidade@bol.com.br

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