quarta-feira, 9 de março de 2016

Seu Zezinho


por Jorge Luis Ribeiro




Seu Zezinho trafega o carrinho de mão e sua pá de lixo pelos cantos invisíveis do campus universitário. Ele limpa as impurezas deixadas pelo corpo acadêmico nos pátios, calçadas, salas, auditórios, corredores e outros cantos de lixo. Dejetos e rejeitos são recolhidos por sua diligente presença. Sua humilde sombra sexagenária vasculha curvada as ervas invasoras, papéis desleixados ao chão, copos e outros descartáveis da civilização acadêmica que se forma alheia e se gradua na pressa do consumo de saberes e rejeitos. Depois do serviço feito, ao pino calor do meio dia, ele se resguarda a um canto privado, entre uma escada e uma parede se serve da marmita simples (requentada em temperos escassos da periferia esquecida, seu almoço saído da cozinha restrita, guardados de uma geladeira branca e magra, tudo cerzido em familiar afeto, apesar da restrição), mas que traduz cuidados domésticos desapercebidos por quem passa por aqueles que foram depostos ao nível do solo que varrem. Mas eis que no intervalo da subsistência, ele se serve do racionado almoço, entre a parede e a sombra, com discrição envergonhada dos que se habituam a serem evitados, e por isso evitam palavras ou aparição, para assim passarmos por eles como se nada houvesse além da natural leveza dos papéis deixados, impressos, jogados ou escritos sobre folhas e pessoas, saberes e seres.
Marabá – março de 2016

Nenhum comentário: