sexta-feira, 4 de março de 2016

Rap da Vila do Rato e toda periferia de Marabá


Por Jorge Luis Ribeiro – Marabá –Pará – Amazônia – Brasil – América do Sul

Podemos transitar de carro pela indisfarçável culpa, pelos arredores esquálidos das ruas desnudas de cores de nossas tão próximas periferias. São chãos sombrios e piçarrentos, esquecidos nos dos olhares rápidos. São vias, beiradas, becos, cuja geografia de classe média contorna as crateras sociais que medram destemidas no descontrole e indiferença, mas que nos fins das vias e semanas ameaçam temor e distância e consequentes desastres entre o ter e o não ter. Nos apaziguamos no policial ajuste de grades definitivas ou de extermínios seletivos se o perigo muito se aproxima, e a possibilidade de contê-los. Mas apesar dos dias e da revelia dos gabinetes espiando entre hipocrisias e fantasias políticas, eles são e lá estão. Às vezes famintamente pacíficos, outras animadamente sóbrios sobre sonhos de garrafas vazias, depois de ilusões luminosas de ecrãs e manhãs ludibriosas, pois o perigo ronda nosso íntimo esforço de segurança e portais eletrônicos, sejam entre muros, sentimentos e relações, erguemos muros de símbolos e cimento. Eles estão calmos agora. Alguns ébrios pelo fim da feira, outros na humilhada espera da moeda no tempo do estacionamento, do almoço esmolado, migalha sobrada do self-serfice no qual nos fartamos, ou na margem e periferia dos direitos. Mas um dia, eis que surgem, e todos os dias surgirão e não sabemos (atônitos) onde se forja tanta violência contida ao ponto de subtrair uma coisa, uma propriedade, uma vida... Como dar valor a uma vida se de lá da esquálida exclusão em que a vida os confinou o mundo lhes ensinou o mesmo que a escola da vida bruta lhes ensina: qualquer vida vale como a minha: nada. Tudo lhes imprimiu a primeira lição amarga: a minha vida não vale nada, a vida “deles” não vale nada, o advérbio vira a gramática da morte e do nada, a minha vida se iguala à dele (nossa),  e foda-se. Esta é vingança surda dele, inteligível para nós, mas que para ele é lei, com todo arremedo de nosso contributo consciente ou alienado. Porque para ele a regra no fim é a mesma:  Aqui prá nós... bem de perto... vale mais quem é esperto. Não é tudo assim?  

Nenhum comentário: