quinta-feira, 31 de março de 2016

Petistas e não petistas

Por Chagas Filho


          Quando um médico se recusa a atender um bebê de um ano de idade simplesmente porque não tem maturidade para conviver com a posição política dos pais dessa criança, isso para mim é um indício de que falhamos como seres humanos.
          E quando esse mesmo médico encontra pessoas medíocres o bastante para naturalizar e até mesmo aplaudir essa forma de segregação, isso para mim já não é mais indício; é prova de que nossa humanidade fracassou.
          A partir dessa segregação cometida por uma médica, podemos imaginar que daqui pra frente  pacientes petistas devem procurar médicos petistas; clientes petistas devem procurar advogados petistas. O que se propõe com isso é um apartheid entre “nós” e “eles”.
          Esse episódio me remete à segregação imposta aos judeus, que eram obrigados pelos nazistas a andar com a estrela de Davi na manga da camisa, para assim serem identificados como cidadãos de segunda classe. Essa foi uma medida inicial, que desembocou no holocausto.
         E nós? Qual será o próximo passo? Delegados de polícia não atenderão petistas assaltados? Supermercados não venderão seus produtos a petistas? Concessionárias não venderão seus carrões aos petistas? O que nos aguarda, afinal? Que outros tipos mais de segregação estão em vias de acontecer ou já acontecendo?
        Hoje uma criança deixou de ser atendida por uma pediatra; amanhã um cirurgião deixa um paciente em estado grave morrer à míngua. É este mesmo o caminho que estamos trilhando? É, para isso, que essas pessoas querem seu País de volta?
E eu que imaginava que pessoas assim só tinham asco dos negros nas universidades ou nos aeroportos, dividindo o mesmo espaço.
          Não, eles podem ir além; a sua vilania e cinismo parecem romper limites, amparados por saberem que não estão sós; tem muita gente que concorda com essa segregação.
          E o mais triste são as justificativas para essa aberração. Circula na Internet um texto odioso em que o autor legitima a segregação praticada pela médica em questão, reduzindo o episódio meramente à questão monetária. Tratam da Medicina como algo de valor mercantilizado tão somente; fragilizam a relação humana e supervalorizam a venda de um serviço, como se fosse outra coisa qualquer e não a vida e a saúde.
         Outra justificativa é de que a criança poderia ser atendida em outro lugar por qualquer outro médico. Sim, é verdade. Nesse caso, o bebê não corria risco imediato de morte.
        Aliás, nesse caso, como se vê, é a melhor coisa a ser feita pela família da criança, afinal erros médicos acontecem e é muito difícil prová-los.
         Depois que um remédio “errado” entrar por “engano” na corrente sanguínea do pequeno - mas já perigoso - petista, não haveria processo judicial capaz de trazê-lo de volta à vida e – como vimos – nem o Conselho Regional de Medicina, nem grande parte dos “cidadãos de bem” iriam se incomodar muito com isso.

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