terça-feira, 15 de março de 2016

O Tempo?

Por Jorge Waschington

Há muito tempo essa imagem me incomoda tanto, ela que seria tão igual a nós se não fosse invisível à indiferença humana, e dos poderes.
Tem problema mental, não tem memória e não tem ninguém, sofre de alguma doença degenerativa que lhe corrói a face, e com uma das mãos, ao caminhar, segura o abdome, talvez uma hérnia a doer no seu silêncio quase absoluto.
Mas uma coisa lhe prende ao passado, pois por mais que não tenha consciência da água suja que corre, a usa para manter sempre bem alinhados os seus cabelos já brancos. Ninguém os vê despenteado.
Ele, quer queiramos quer não, é parte torta da nossa paisagem urbana central, uma figura humana, desumanamente esquecida.
O que mais me intriga é a perfeição das repetidas vezes que passo lá, e entra uns rabiscos e outros, desenha o número cinco. Portanto, decidi refletir poeticamente. Vamos?
CINCO
Cinco décadas mal passadas,
Os cinco dedos das mãos.
Cinco filhos no passado,
Cinco promessas não cumpridas,
Cinco os governos que o são indiferentes,
Cinco minutos de dor,
Cinco esquinas moradas no mais perfeito desatino,
Cinco remorsos dementes,
Cinco décadas que passaram,
Cinco que não passarão.
Cinco irmãos, quem sabe, que não sabe se o são.
Cinco amores, cinco mortes,
Cinco pedaços de papelão,
Cinco pedras atiradas na lua,
Cinco boas lembranças nuas.
Cinco poderes sociais, com mídia e televisão.
Cinco pecados, cinco sortes,
Cinco grandes decepções.
A morar sob o cruzeiro, cinco estrelas a brilhar,
Cinco dias, cinco noites, cinco madrugadas vãs.
Cinco dias da semana, menos dois pra descansar.
Cinco documentos brancos, cinco sinas de cidadão.
Cinco cartas recebidas, cinco respostas perdidas,
Cinco chances desmentidas.
Cinco litros de água suja, cinco vermes, cinco dores,
Cinco cortes na fronte, cinco elementos ruins,
Cinco gotas de vida.
Cinco horas, cinco meses, quantos dias passarão?
De zero a nove, cinco é o meio, meio termo, meio turno,
Cinco meios pra viver.
Ser meio gente, meio bicho, ser transparente ou mudo.
Mundo demente, cinco cantos.
Dos quatro cantos, o quinto, é refúgio e exclusão.
Cinco pontos cardeais, cinco somas cardinais.
Cinco espinhos de Cristo, cinco perdões iminentes,
Cinco é palavra somente, sem sentido pode ser,
De com cinco coincidentes letras, onde paira a lógica demente,
Tão inexata e tão certa, nos cinco dedos da mão
a segurar suas dores,
Por entre tantos senhores, cinco passos de solidão.
Pra ter sorte falta oito, logo azar é o que se vê,
se são somente cinco, são então cinco,
por quê?
Foto de Jorge Waschington

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