terça-feira, 1 de março de 2016

2º FESTIVAL INTERNACIONAL AMAZÔNIDA DE CINEMA DE FRONTEIRA / FIA CINEFRONT II


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Tema: “Indígenas, camponeses e guerrilheiros: re-existências na fronteira amazônica”
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Apresentação
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O Festival Internacional Amazônida de Cinema de Fronteira - FIA CINEFRONT é um evento organizado pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará – UNIFESSPA, em parceria com movimentos sociais e com a Secretaria Municipal de Cultura de Marabá, ofertando sessões gratuitas de cinema com caráter de mostra e debate de obras cinematográficas que abordam a realidade de regiões consideradas periféricas, fronteiras, como no caso da Amazônia. 
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O Festival surgiu como mostra de denúncia das consequências dos processos de “desenvolvimento” pautados por interesses econômicos e políticos vindos dos “centros capitalistas”, que se sustentam na exploração dos recursos naturais e da força de trabalho da população que vive na fronteira, gerando violências de todos os tipos, degradação humana e ecológica. Entretanto, mais que denuncia, o Festival pretende mostrar por meio da imagem, da fala e do fazer cinematográfico que se produz desde a fronteira, que aqui existe uma dinâmica social própria que envolve vida, trabalho, cultura, modos singulares de existir, de se organizar politicamente e de se relacionar com o mundo e com o meio em que se vive, independentemente daquilo que é engendrado pelos interesses dos chamados “centros”. Assim o festival se coloca também como momento de celebrar as lutas sociais e a re-existência popular que fazem da fronteira front de batalha por direitos, igualdade, justiça e dignidade.
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Em 2016, seguimos no front que é o sudeste do Pará, Amazônia Oriental, seguimos na fronteira reinventada desde dentro, segundo as perspectivas das lutas sociais, como o centro dos embates, da resistência, o lugar dos combates físicos e epistêmicos, cujas transformações podem ter força de impacto além front. E aqui, como parte destes embates, o Festival Internacional Amazônida de Cinema de Fronteira, em sua segunda edição, pretende colocar em foco as lutas travadas por indígenas, guerrilheiros e camponeses e a realidade de violações de direitos constituída pelo processo de ocupação da Amazônia no contexto da Ditadura Militar no Brasil.
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O FIA CINEFRONT II será composto pela mostra de obras fílmicas em que indígenas, camponeses e guerrilheiros são apresentados como protagonistas intelectuais e políticos de lutas de resistência que possuem em comum um caráter anti-colonial, mas que às vezes conflitam entre si, sendo um dos objetivos do festival provocar visibilidades aos conflitos na fronteira e estimular reflexões sobre possibilidades de construção de alianças emancipadoras entre os sujeitos em luta.
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Assim o FIA CINEFRONT reafirma seu compromisso com cinema de fronteira enquanto arma de descolonização, de combate a colonialidade, isto é, daquela mentalidade e das ferramentas institucionais que reproduzem-legitimam a desigualdade social e sustentam privilégios de grupos sociais que se julgam superiores quando, pela exploração do trabalho, destruição dos modos de vida e expropriação dos recursos naturais, condenam outros grupos sociais a uma existência de humanidade roubada. 
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Neste ano o FIA CINEFRONT homenageia mais um realizador de cinema de fronteira: Vincent Carelli, indigenista, documentarista, fundador do Vídeo nas Aldeias e diretor de filmes como "Ninguém come carvão" [1991] e "Corumbiara" [2009], que, respectivamente, denunciam a destruição da floresta pelas siderúrgicas no Pará e Maranhão e o massacre de índios na Gleba Corumbiara, em Rondônia. 
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Autor de uma obra que se constitui como um importante registro histórico sobre a Amazônia, Carelli esteve pela primeira vez na região em 1969, em uma visita aos Xikrin do Catete. Foi uma viagem transformadora. Em seguida, entrou na Funai por concurso público de indigenista. Em meio a ditadura a violência do desenvolvimento contra os povos indígenas, Carelli deixou o Estado para unir-se às resistências e lutas do movimento indígena e indigenista. Como fotografo, realizou uma das primeiras grandes coberturas jornalísticas sobre a guerrilha: junto dos jornalistas Palmério Dória, Sérgio Buarque e Jaime Sautchuk, revelaram na revista História Imediata o que a ditadura queria esconder: o massacre do Araguaia. 
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Foi Carelli quem encontrou a primeira fotografia que se tornou pública de Osvaldão, o líder mais conhecido do movimento guerrilheiro, nos arquivos do Clube de Regatas do Botafogo. O filme sobre a vida do comandante guerrilheiro, “Osvaldão” [2015], longa-metragem produzido por Renata Petta e dirigido por Vandré Fernandes, Ana Petta, Fabio Bardella e André Michiles, honrosamente estará na abertura do FIA CINEFRONT II. 
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Nos anos 1980, Carelli passou a acompanhar os “Gavião” e a luta do cacique Krohokrenhum para a defesa do território. Registrou a disputa e a negociação do conflito entre indígena e camponeses na Terra Indígena Mãe Maria, e a resolução do conflito a partir da sofisticada diplomacia de Krôhôkrenhum e outras lideranças indígenas, como o cacique Paiaré, juntamente com o sindicalista Almir Ferreira Barros, do sindicato de São João do Araguaia. Barros faleceu em dezembro do ano passado e Paiaré, líder do grupo Gavião da Montanha faleceu em 2014, sessões especiais do festival serão organizadas na Aldeia Gavião – Reserva Mãe Maria, como um momento de homenagem aos dois pelas suas lutas em favor dos povos do campo e dos povos indígenas. 
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A trajetória do trabalho de Carelli, portanto, cruza os diversos polos de resistência que emergiram no sul e no sudeste do Pará nos últimos 40 anos. Rever esse caminho junto com o público da região é uma chance única de se repensar a história da resistência, e vislumbrar, para o futuro, novas possíveis pontes, articulações e união. 
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As lutas de resistência, como lutas de descolonização, que levaram a reinvenção da fronteira como lugar de vida e protagonismos políticos de diferentes sujeitos amazônicos na defesa de suas comunidades e grupos sociais diante do “avanço do capital”, que podem ser unificadas como lutas emancipatórias, serão tematizadas também durante a apresentação da atração internacional do festival, o filme “A Respeito da Violência” [2014], sobre a obra do psicanalista Frantz Fanon. O filme, dirigido pelo sueco Göran Hugo Olsson e narrado pela cantora Lauryn Hill, é baseado nos escritos de Fanon sobre o colonialismo Europeu na África e apresenta a perspectiva dos povos colonizados nas suas lutas por independência.
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Apostando no cinema como um mecanismo de fortalecimento da luta popular, o festival segue a parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, organizando sessões de exibição e debates de filmes no Acampamento da Juventude na Curva do S, como parte das atividades político-culturais que homenageiam a memória dos camponeses mortos no Massacre de Eldorado dos Carajás. E buscando criar pontes, articulações e união que fortaleça o protagonismo cinematográfico no front amazônico, além de apresentar obras selecionadas de diretores da região e convidados, o festival nesta edição abrirá espaço para sessões especiais de socialização de festivais parceiros [Festival de Cinema Curta Carajás e Festival Internacional de Cinema do Caeté], com filmes e debates sobre obras cinematográficas que circulam pela Amazônia, além da promoção de oficinas que estimulem e ampliem o protagonismo de produtores locais e o uso do cinema como arma política contra a colonialidade. 
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Espera-se que o conjunto dessas obras, assim como o trabalho documental do indigenista Vincent Carelli, inspirem a todos espectadores a refletir sobre a Amazônia como fronteira global do capitalismo e do colonialismo, marcada por conflitos e possibilidades. Que o cinema nos ajude a perceber, assim como Fanon no livro Os Condenados da Terra, cujos trechos são narrados no filme Sobre a Violência, que “a descolonização, que se propõe a mudar a ordem do mundo, é um programa de desordem absoluta” e um processo histórico, complexo e diverso em situações de violência e resistências, que na “desordem” das vitórias das lutas e movimentos sociais avançaram na Amazônia e assinalam outros mundos possíveis.
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Assim, acreditando, como Fanon, que “toda descolonização é um triunfo”, o FIA CINEFRONT II quer ser um espaço para se pensar os triunfos e as derrotas desse processo histórico, expor as diferenças para, nas diferenças, todos aqueles e aquelas que enfrentam esse processo histórico para conseguir a emancipação e “mudar a ordem do mundo”, camponeses, indígenas e guerrilheiros, possam se encontrar para enxergar o que os aproxima mais do que, nessa “desordem absoluta”, os distancia.

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