terça-feira, 13 de outubro de 2015

CRIME AMBIENTAL: E a Sema o que faz?

JBS brinca de esconder efluentes no Itacaíúnas
13/10/2015 - 08:16 postado no Jornal Correio do Tocantins
Menos de uma semana depois de mulher denunciar lançamento de efluentes, empresa faz mágica para minimizar polêmica
Parece passe de mágica, mas não é. A JBS (frigorífico ou curtume) não se sabe ao certo, tentou esta semana amenizar a polêmica estabelecida pela caiaqueira Vivian Barros, que postou fotos em uma rede social de uma tubulação que despejava efluente negro e fétido no Rio Itacaiúnas. Mas de nada adiantou.
Inicialmente, nem a própria Vivian tinha certeza que a tubulação era oriunda do frigorífico ou de seu irmão gêmeo curtume e por isso não colocou o nome da empresa. Todavia, durante o último domingo, uma equipe do Jornal CORREIO com a TV CORREIO seguiu o rastro do odor e do efluente negro para certificar-se de que a fonte dos resíduos são, de fato, os super-gêmeos.
Quando Vivian Barros fotografou, no domingo anterior, a tubulação de 400 mm despejava o efluente em forma de cascata no rio, a uma altura de 1 metro. Após a publicação das fotos, a empresa agiu rápido e mandou uma equipe colocar um joelho e um tubo extensor para que o líquido negro caísse diretamente no rio sem chamar a atenção com a cascata. A tubulação nova, inclusive, ganhou reforço de arrebite para que não seja retirada com facilidade.
No lugar em que escorre o efluente, o rio fica escuro e 50 metros acima há uma estação de captação de água do rio para o frigorífico, com dois motores bombas que são acionados diariamente por uma equipe da JBS.
Ao analisar um vídeo com imagens do efluente sendo lançado no rio, o engenheiro químico Rogério Santa Rosa, consultado pelo Jornal, avalia que a cada hora a empresa deve jogar no Itacaiúnas cerca de 5 mil litros de seu rejeito. “A coloração já dá indícios, por si só, de que há algo errado e que os resíduos não receberam o tratamento adequado”, observou Santa Rosa.
Para ter certeza de que a canalização dos resíduos era, de fato, da JBS, a equipe do CORREIO seguiu a pé por uma estrada de chão sempre tomando como base a linha de transmissão de energia que abastece a casa de bomba dentro do rio. Foram 2,5 km de caminhada, passando por brejos, cruzando a Estrada de Ferro Carajás e ainda a pista de dá acesso ao Aterro Sanitário.
Depois de 2,5 km de pé na estrada e conversa com alguns moradores da redondeza, não houve dúvidas de que o efluente tem origem em uma ou nas duas empresas da JBS. Parece também que esse duto não passa pelas lagoas de decantação existentes nas duas plantas industriais da empresa.
A Reportagem do CORREIO enviou email para a Assessoria de Imprensa da JBS, localizada em São Paulo, porque ninguém da direção das empresas responde às indagações dos veículos de comunicação em Marabá. Mas, como tem ocorrido nas últimas duas vezes, o silêncio foi a resposta.
No faro
Procurado pela Reportagem do CORREIO, o secretário de Meio Ambiente, Carlos Brito, confirmou que estava sabendo do assunto e que uma equipe da Semma seguiria hoje, terça-feira, 13, para a área, com a finalidade de analisar a situação e tomar amostras do líquido para saber se passou pelo tratamento adequado ou não.
A promotora de Justiça do Meio Ambiente, Josélia Leontina de Barros, também procurada pelo Jornal nesta segunda-feira, 12, ficou espantada com as imagens e disse que vai exigir da Semma relatório da inspeção para poder se posicionar sobre o caso.
Jornal e TV investigam e acham rastro da poluição
A Reportagem do CORREIO foi mais a fundo e percorreu a mata no perímetro do frigorífico e do curtume JBS, passando por dentro de fazendas e lagoas. No meio do caminho, encontramos vários animais silvestres, inclusive um veado fuboca.
Caminhoneiros que transportam lixo para o Aterro Sanitário fizeram questão de parar e ajudar a apontar os locais em que a empresa JBS realizou serviços recentemente para abertura de uma nova estrada em direção ao Rio Itacaiúnas, inclusive aterrando parte de uma lagoa.
Não deu outra. O mesmo cheiro sentido na encanação que desemboca no Itacaiúnas foi sentido na lagoa, à margem esquerda da Estrada de Ferro Carajás. A lagoa parece, de fato, contaminada. Quem passou por lá derrubou árvores, muitos coqueiros e colocou uma outra tubulação para passagem da água.
Parte da vegetação da lagoa foi extirpada. Os vizinhos dizem que pescavam nela antigamente e agora estão poluídas. “A gente sempre ia para essas lagoas, que enchem no inverno, mas agora não dá mais. Não apenas porque não têm peixes, mas porque a não conseguimos ficar por perto de tão fedida que é”, lamenta um dos moradores das imediações, que pediu reserva de seu nome temendo represália.
É bom ficar claro que não há outra fonte poluidora por perto. Não se pode atribuir o liquido preto e fétido que contamina as lagoas da redondeza ao Aterro Sanitário, que fica a mais de cinco quilômetros dali.
É preciso que fiscais da Semma (Secretaria Municipal de Meio Ambiente) e da Semas (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade) hajam rápido e juntas, antes que a JBS crie um mecanismo de mágica para escamotear os prejuízos ambientais que vem causando com suas duas indústrias em Marabá.
A JBS parece não dar a devida importância ao meio ambiente em Marabá e faz do Rio Itacaiúnas sua fossa. Nas últimas duas vezes em que a Reportagem do Jornal procurou a empresa para se manifestar sobre problemas ambientais denunciados por autoridades, a Assessoria de Imprensa – que fica em São Paulo – não enviou uma nota sequer. Atitude semelhante aconteceu agora. É estranho avaliar como uma empresa que se propõe a ser o maior grupo de produção de alimentos do País trate o meio ambiente e as comunidade de onde retira sua riqueza de forma tão desprezível.
“O rio secou tanto que só agora vi esse cano”
Nenhum outro barqueiro é tão experiente no Rio Itacaiúnas quanto José Carlos Pinto, 49. Ele sobe e desce o rio toda semana, indo do Porto do Tacho à Orla do Rio Tocantins, passando pela longa e perigosa cachoeira Pirucaba. E garante que ainda não tinha visto o cano jorrando efluentes no porto da JBS.
Para ele, a explicação é a seguinte: o rio enfrenta sua maior seca dos últimos 20 anos e o cano ficava em um nível tão baixo que só agora pôde ser percebido. “Acho que estavam lançando essa imundície no rio o tempo todo e a gente não estava sabendo. Pode olhar que o cano tem cara de velho, não é algo novo”, avalia.
(Ulisses Pompeu)

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