quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Ativistas rebatem declaração de delegado sobre racismo



 A afirmação do delegado Carlos Eduardo Vieira, superintendente regional de Polícia Civil do Sudeste do Pará, de que, seguramente, não há casos de homicídio em Marabá ligados à questão racial, causou espanto em membros de movimentos que militam no combate ao preconceito racial na cidade.

 Quem fala sobre o assunto é Etiane Patrícia Reis e Eric de Belém Oliveira, que integram Coletivo Consciência Negra em Movimento. Eles observam que, apesar da grande quantidade e qualidade das evidências empíricas e provas científicas de que no Brasil o componente racial estrutura as desigualdades e condena negros a serem maioria entre os mais pobres e principais vítimas da violência, isso não tem sido suficiente para sensibilizar muitas autoridades que deveriam combater o racismo.

 A declaração é uma resposta à entrevista do delegado na Imprensa local. Para os ativistas do movimento que promove debate em vários ambientes coletivos de Marabá, a fala do policial contraria os dados da versão preliminar do "Relatório de Vulnerabilidade Juvenil à Violência", encomendado pela UNESCO e pela Secretaria Geral da Presidência da República ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no qual Marabá figura entre as cidades mais violentas do País para os jovens negros, pois a cada 4 homicídios em Marabá, 3 envolverem jovens negros.

 “Lamentamos profundamente argumentações que neguem a existência do racismo no Brasil e em nossa cidade e que infelizmente insistam em atribuir o enorme abismo social no País a apenas uma questão de classe. A própria Constituição Federal, ao criminalizar o racismo (Art. 5°, Inciso XLII), reconheceu a sua existência e seu papel na perpetuação da barbárie vivida pela população negra no Brasil”. É o que diz documento assinado pelo Coletivo Consciência Negra em Movimento.

 Eles observam que nenhum país do mundo está livre totalmente do preconceito, discriminação ou do racismo. “Por que no Brasil e em Marabá seria diferente?”, questionam, acrescentando que, infelizmente, a chamada "democracia racial", opera como um mecanismo de manutenção do quadro de desigualdades, criando um cenário ilusório de uma sociedade de igualdade de direitos e oportunidades.

 Para os ativistas, esse caráter velado da discriminação racial torna difícil o seu combate, uma vez que a discussão do racismo em si converte-se em tabu e seu ocultamento acaba por confundir-se com inexistência. Tais contradições são propositadas: a sobrevivência do racismo aqui se dá também pela recusa de sua existência. Esse é um dos principais traços do racismo à brasileira.

 “É extremamente preocupante a naturalização de um quadro do qual Marabá não se exclui, onde mais de 8.000 jovens negros morrem todo o ano no Brasil ou algo como três aviões lotados de jovens negros, caindo todos os meses, sem nenhum sobrevivente”, denuncia o movimento.

 Eles não têm dúvida de que está em curso no Brasil um silencioso genocídio da juventude negra cujas causas não podem ser remetidas exclusivamente a aspectos socioeconômicos. “Afirmações como as do delegado pretendem negar e naturalizar, contra todas as evidências científicas, os efeitos de quase 400 anos de escravidão na história brasileira”, denunciam.

 “Essas são visões que também não se libertaram desse passado escravista e colonial. São atavismos que se colocam na contramão da construção de uma sociedade livre e igualitária e que mantém intactas as rígidas estruturas do enorme abismo social brasileiro”, finaliza o documento.


 Alguns episódios revelam racismo cotidiano

 Eric Belém relata casos de racismo institucional em Marabá, que revelam o quanto as declarações do policial não têm relação com os fatos. Ele conta que trafegava num ônibus lotado, quando policiais entraram e começaram a revistar passageiros. Mas os únicos revistados foram ele e outros dois negros.

 O que intriga Eric é o fato de que embora ele e os outros revistados no ônibus fossem negros, tinham características completamente diferentes, inclusive nas roupas que usavam. Mesmo assim, foram apenas os três revistados, numa clara demonstração de que o que motivou a revista policial foi o racismo institucionalizado. Mas o pior ainda estava por vir.

 “Tiraram minha touca, reviraram toda, acenderam uma lanterna debaixo do meu banco, e como não encontraram nada, simplesmente me viraram as costas e saíram. Quando eu perguntei o porquê de ter sido revistado, um dos policiais ainda me perguntou se eu estava aloprando e voltou na minha direção. Como ninguém no ônibus disse nada, eu tive que me calar”, relata Eric.

 Outro caso relatado por Eric aconteceu com o irmão dele que foi vítima de racismo num supermercado da cidade e chegou a ser agredido. Eric lembra que tentou registrar ocorrência durante três dias e só conseguiu que seu irmão fizesse exame de corpo de delito quando constituiu um advogado, embora tivesse direito, como qualquer cidadão.

 “E ainda fui orientado a não fazer nenhum tipo de manifestação na porta do supermercado porque poderia ser processado pelo dono do estabelecimento”, relembra Eric Belém.

 Fonte: http://marabanoticias.com

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