domingo, 11 de janeiro de 2015

Atentado ao Jornça francês I

Diariamente, crimes são cometidos em nome de nossos totens e tabus. Mas é mais fácil acreditar que só os muçulmanos levem a cabo o próprio fanatismo


"Esses caras são tudo louco. Não pode provocar." "Ninguém é obrigado a respeitar a cultura deles. Eles que se mudem." "Se depois desses atos as pessoas continuam defendendo o Islã, é porque compactuam com os crimes." "Toda mesquita deveria ser apedrejada." "Não adianta agora os líderes pedirem perdão: eles criaram os monstros."
Repare no teor das frases acima, retiradas de conversas informais e manifestações em redes sociais após o ataque à sede do jornal Charlie Hebdo, em Paris, que deixou 12 mortos, entre eles o editor-chefe do semanário e três de seus principais ilustradores. As manifestações deixam dúvidas sobre quem são os responsáveis por tornar o mundo uma grande área de risco: a religião. Não qualquer religião, mas o islamismo.
Agora pegue todas as sentenças do primeiro parágrafo e troque pelas palavras “cristãos”, “papa”, “igreja”. Troque o atentado de quarta-feira pelos crimes de abusos sexuais ocorridos dentro da Igreja Católica – casos que levaram muitas de suas vítimas, a maioria crianças, ao suicídio. Pela lógica das manifestações ao longo da semana, todos os cristãos, do coroinha ao papa Francisco, são potenciais criminosos. Afinal, todos ouviram falar dos crimes praticados pelos clérigos católicos e ainda assim continuam a frequentar a missa e a espalhar seus dogmas, a começar pela leitura cinzenta (e violenta) do Velho Testamento. Compactuam, assim, com os mesmos crimes, e merecem ter suas sedes apedrejadas – ainda que o papa tenha pedido perdão publicamente, no dia 7 de junho de 2014, pelos atos que “profanam a imagem de Deus”.
De duas, uma: ou nenhum desses argumentos faz o menor sentido ou passaremos a aceitar que pertencer a uma religião, qualquer que seja, é pertencer a um grupo de risco, deliberadamente passível a fanatismos movidos a lavagens cerebrais. Prefiro a primeira opção por um motivo simples: quando um marido mata uma mulher por ciúmes, ninguém sai às ruas contra a instituição do casamento. Quando um bêbado atropela um pedestre, ninguém destrói a sede da General Motors ou da AmBev. Quando um posseiro define uma propriedade pela bala, ninguém sai por aí arrebentando cercas.
A tragédia de 7 de janeiro despertou em uma multidão o mesmo espírito que ela julga combater: a irracionalidade. Quando esta é praticada pelo "outro", é fundamento; quando ocorre dentro das estruturas das quais fazem parte, é desvio, notadamente manifestado por problemas mentais.
Sim: o que aconteceu na sede do semanário francês é um absurdo, que coroa um período sombrio de entendimentos truncados, ofensas gratuitas, xenofobia latente e violência. As investigações ainda são inconclusivas, mas tudo leva a crer que os crimes tenham sido motivados pela suposta ousadia dos cartunistas em retratar Maomé. Sim: há lunáticos no mundo capazes de combater a chacota da tinta com a ponta de uma Kalashnikov. Há lunáticos que colocam símbolos sagrados acima das vidas humanas que os profanaram. Uns são religiosos, outros não. Ou seria outra a motivação do marido que estrangula a mulher quando sua “honra” é profanada? Ou de posseiros que promovem emboscadas motivadas por conflitos de terra? Ou do sujeito que mata uma desconhecida no estacionamento da festa para defender o próprio carro?

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