segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Pernoite

Pernoite!

A Rodoviária de Marabá era ali na Rua Ana Néri, entre Travessa João Parsondas de Carvalho e Augusto Dias na Marabá Pioneira, e por lá permaneceu por muitos anos, mas também foi em outras ruas de Marabá. Isso depois do advento do aterro, na entrada da Cidade Pioneira, que foi feito depois da abertura da Rodovia Transamazônica na década de 70 (setenta).
A Transamazônica foi planejada para integrar melhor o Norte brasileiro com o resto do país. Foi inaugurada em 27 de agosto de 1972. Inicialmente projetada para ser uma rodovia pavimentada com 8 mil quilômetros de comprimento, conectando as regiões Norte e Nordeste do Brasil com o Peru e o Equador.
O trânsito nessa Rodovia, na parte onde não chegou a pavimentação é impraticável nas épocas de chuva na região (entre outubro e março).
A BR-230 ou Transamazônica é uma rodovia transversal. É considerada a terceira mais longa rodovia do Brasil com 4 223 km de extensão, ligando cidade portuária de Cabedelo na Paraíba ao município de Lábrea, no Amazonas cortando algumas das principais cidades do estado do Pará: Marabá ,Altamira e Itaituba.
Os ônibus sempre chegavam de alguma forma com sua aparência diferente. Os passageiros também. No inverno chegavam enlameados, tanto o passageiro como o ônibus, que muitas vezes atolava no lamaçal que se formava ao longo das estradas e no verão eram empoeirados. Esses ônibus sempre estavam em péssimas condições de uso, mas isso nem era questionado. As pessoas queriam era ter um meio de transporte pra chegar ao município.
Certa vez vi uns garotos abordando passageiros que desciam dos ônibus com a seguinte pergunta:
- Pernoite?
Como eu era muito moleque ainda, não conhecia tal vocábulo e portanto também não sabia seu significado. Passei a observar cada vez mais aquela rotina daquelas pessoas e percebi que aquilo significava levar passageiros para as “pensões”, que se aglomeravam nas ruas adjacentes ao terminal rodoviário. Os passageiros abordados eram oriundos, em sua maioria, de cidades e vilarejos do Maranhão, que acorriam para minha cidade, na ânsia de fugir da miséria que grassa naquele estado, apenas por ser uma terra explorada por uma oligarquia política. Isso perdura até hoje. Tanto a oligarquia, como a miséria e o descaso político, praquelas bandas do Maranhão. Mas havia também passageiros de cidades e vilarejos de outros estados do país, inclusive do próprio Pará, mas a maioria como já disse antes, vinha mesmo do Maranhão.
Todos eram bem acolhidos e tratados com respeito pelos marabaenses.
Passei a seguir aqueles que eram abordados e confirmavam a pergunta com a qual haviam sido recebidos e vi que rumavam para as pensões, por isso cheguei à conclusão que se tornavam hóspedes nesses locais de hospedagem. Vi também que quem levava os passageiros recebia uma gorjeta do proprietário da pensão. Foi assim que conheci a “Dona Aparecida”, mãe da Nágila, do Nagib e do Nagilson Amoury. O Nagib eu já conhecia pois estudava comigo lá no Judith Gomes Leitão e mais tarde também fez aulas em uma das primeiras turmas do SENAI. Ele também buscava passageiros na rodoviária para poder ajudar os pais na labuta diária de sustentação dos filhos. Eles eram ou são vários irmãos também, assim como em minha família.
Levei muitos passageiros que se tornaram hóspedes naquela pensão.
Algumas famílias mandavam os filhos pra rodoviária, com materiais diversos, geralmente produtos alimentícios, com o intuito de melhorar a situação financeira.
A maioria dos garotos de minha infância deve ter uma lembrança dessa rodoviária. Alguns lembram somente de passar por lá, rumo à Belém, mas esses eram garotos filhos de famílias que possuíam melhor poder aquisitivo, em sua maioria esse poder era adquirido através da exploração de outros menos favorecidos. Já os outros como eu, apenas sonhavam um dia poder embarcar em um ônibus daqueles e rumar pra outras "bandas". Mas essa é a roda da vida.
Hoje eu já não sonho mais em embarcar em ônibus na rodoviária. Hoje atravesso meu país em aeronaves.
Certa vez comi um mungunzá (Mucunzá) muito gostoso. Comprei de um garoto que era maior que os demais e que eu não conhecia. Ele vendia o mingau naqueles copos americanos de vidro “Nadir Figueiredo”, que eram acondicionados em uma caixa de madeira, um engradado de Guara Suco, que fora adaptado para acomodar aqueles copos cheios desse mingau com uma cobertura de canela em pó. O mingau era feito por “Dona Juracy Teixeira” e o nome desse garoto era Wilson, que passou a ser conhecido mais tarde por Wilsão, por conta de seu porte físico. Anos mais tarde ao comentar com ele esses episódios ele me disse não lembrar muito bem dessa época de sua vida. Faz-me rir o Wilson.
Eu, de minha parte, lembro muito bem de minha época de criança e sinto muito orgulho disso. Não tenho saudades e sim boas lembranças, desse tempo.
Mas voltemos ao pernoite...
Certo dia por não ter chope pra vender avisei à minha mãe que iria ver se conseguia “pegar passageiros”, pra pernoitar.
Minha mãe falou então:
-Pernoitar onde, “mininu”?!
Fui então explicar a ela a nova modalidade de ganhar um dinheirinho extra que eu havia descoberto. Passei então a abordar passageiros na rodoviária, com o intuito de ainda conquistar meu primeiro milhão.
A pensão da “Dona Aparecida” ficava ali na descida da Travessa João Parsondas de Carvalho onde se inicia a Avenida Silvino Santis. Na esquina anterior, nessa mesma travessa, mas no cruzamento da Norberto de Melo, ficava o “Bar do Luiz Lopes”. Lá no Luiz Lopes ficava quase todo o meu dinheiro, pois eu gostava muito de comprar chicletes de tutti frutti (Ping-Pong), pra poder grudar as imagens que vinham de brinde em suas embalagens, tipo tatuagem, que você aplicava em qualquer parte do corpo, bastando para isso um pouquinho de saliva. Os chicletes e balinhas eram acondicionados naquelas bobonieres de vidro com três "andares", que ficavam em cima do balcão, exposta aos olhos mais gulosos. Verdadeiro sonho de criança.
Comprava também no Luiz Lopes, picolé ou mesmo guara Suco. Muitas vezes também comprava Ki-Suco pra fazer os chopes que iria vender no dia seguinte.
Não posso culpar o Luiz Lopes por minha derrocada na aventura de juntar meu primeiro milhão, mas com certeza a metade do dinheiro que eu ganhava levando hóspedes pra “Dona Aparecida” foi parar no caixa dele.

Celso Santana

Um comentário:

JBS disse...

Gostei desta história de Celso Santana a história de Marabá é muito rica em detalhe principalmente os que moram na marabá Pioneira.