sábado, 23 de novembro de 2013

A SAGA DE UM CASTANHEIRO

FÉLIX RIBEIRO MARTINS, mais conhecido como  FELIM, embora sua certidão de nascimento registre o seu  assento em 26/06/1935, no município de Marabá, ele nasceu  no município de Araguatins, na época Estado de Goiás, hoje Tocantins, e estima-se que tenha muito mais anos do que o declarado, pois seu documento original foi queimado durante a  Guerrilha do Araguaia.

Félix era o 3º filho do casal Pedro Martins dos Santos e Salustiana Ribeiro Souza. Seu pai morreu quando ele tinha apenas 08 anos de idade, motivo que o levou a trabalhar cedo com os outros três irmãos para poder garantir o sustento da família que vivia basicamente da agricultura e da pecuária. Seus irmãos eram Raimunda Ribeiro Martins, conhecida como Mundica, José Ribeiro Martins e Davi Ribeiro Martins.

Alguns anos depois a sua mãe, Salustiana Ribeiro Souza, casou-se com Raimundo Paraguaia de Freitas, pequeno fazendeiro que possuía 600 cabeças de gado. Este passou a ser o pai de Félix e de seus demais irmãos.

Mas não demoraria muito para Félix “caí no trecho” em busca de sua independência financeira. Em meados de 1953, ele segue o exemplo de seu irmão mais velho e viaja para o município de Xambioá para trabalhar no garimpo do Chiqueirão. Em Xambioá, numa festa de Cabaré, ele conheceu Maria Pereira Moura, mais conhecida como Maria Moura, que nos dizeres dele era uma “jovem boneca” que perdera a mãe durante o seu parto e estava iniciando a vida de mulher, a exemplo de outras mulheres retirantes da época.

Maria Moura havia vindo de Imperatriz - Estado do Maranhão, fugindo de um casamento arrumado pelas freiras no convento onde morava desde criança. O Pai de Maria Moura era Estevam Moura, quem lhe entregou sob os cuidados das freiras no convento de Imperatriz, depois que perdeu a esposa durante o parto que deu a luz a Maria Moura. Como não tinha condições de criar a filha, pois além de culpá-la pela perda da esposa, ainda precisava trabalhar de lavrador numa terra em Jatobá/MA, deixou-a no convento.

No ano de 1957, depois de passar em Araguatins para deixar dinheiro para sua Mãe, Félix Martins viajou de barco para o município de Marabá, Estado do Pará, onde passou a viver por quase toda a vida. Desde então perdeu contato com a sua mãe e demais familiares. Ao chegar em Marabá teve notícias de que Maria Moura estava levando a vida de mulher solteira na rua “Canela Fina”, velha Marabá e já tinha uma “penca de filhos”.

Desde então Félix passou a trabalhar muito. Foi mariscador de diamante nos Rios Tocantins e Itacaiúnas, trabalhou como castanheiro e tropeiro no polígono dos castanhais e peão de fazenda por mais de 40 anos na região. Nesta época Marabá liderava na produção de castanha-do-Pará, matéria prima no auge do mercado da economia nacional e mundial.

Não demoraria muito para Félix juntar-se com Maria Moura. Segundo ele, quando foi para se juntar com Maria, ela o alertou: “quem ama o cão deve amar o balcão”, informando-o que tinha uma “penca de filhos” e se ele estaria disposto a assumi-la teria que aceitar seus filhos, pois já havia dado alguns filhos por falta de condições de criá-los e não estava mais disposta a dar mais nenhum filho. Como Félix era um homem muito generoso e sempre foi apaixonado por Maria Moura, resolveu aceitar o desafio e levou ela e seus filhos de avião para uma Fazenda, pois Maria havia sofrido perdas materiais com as cheias dos Rios Tocantins e Itacaiúnas e por isso não teve condições de ficar na cidade.

Com a comercialização da castanha em alta e as porções de terras devolutas em abundância, Félix adentrou as matas subindo o Rio Itacaiúnas até chegar ao Rio Parauapebas em busca do “ouro branco”, denominação dada a Castanha-do-Pará no auge de sua comercialização. Durante a coleta da castanha, Félix aproveitava para mariscar algumas peles de onça pintada e faturar algum dinheiro a mais. Ele dizia que durante as suas andanças nas matas sempre “esbarrava” com índios, mas que nunca foi atacado por eles e se fosse estava bem preparado com a sua espingarda e um bornal cheio de cartuchos.

Nessa ocasião ele se instalou a margem do Garimpo de Serra Pelada onde passou a viver como lavrador num pedaço de terra devoluta onde se localiza hoje uma das fazendas de uma família de goianos que despertaram cobiça pela região e valeu-se de influências políticas para obter junto ao governo da ditadura a apropriação de uma vasta área de terras devolutas, inclusive esta que Félix vinha habitando e trabalhando.

Desta forma se intensificou no Pará, especialmente na região de Carajás, a formação de grandes latifúndios e o surgimento de oligarquias. Como Félix não tinha grandes ambições e não era alfabetizado, reconheceu os novos donos das terras que até então não tinham donos e passou a trabalhar para eles à custa de alguns trocados e mantimentos, sem ter consciência do regime de exploração e escravidão em que estava sendo submetido.

Félix teve um único filho com Maria Moura em 1978. Juntos passaram a viver as custa do próprio trabalho, garantindo estudo e o mínimo para o sustento não somente de seu filho, como também dos outros filhos de sua mulher. Félix perdeu Maria Moura em 1999 e quatorze anos depois, em 12 de novembro de 2013, faleceu ao lado de seu filho, com quem viveu seus últimos anos no município de Parauapebas. A pedido, seu “Felim” foi sepultado no Cemitério da Saudade, município de Marabá, ao lado de sua amada Maria Moura, deixando o filho Raimundo Moura e um casal de netos, João Mateus e Maria Vitória. Até então a história de mais este castanheiro era anônima, mas que agora fica registrada para as futuras gerações.

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