sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Poesia centenária

A merda do cavalo do “Nêgo Nazaré”.

Outro dia vi o Lorenço, lá na casa do Dindô, ali na Antônio Maia. O Dindô vendia leite, na porta de casa. Ele já estava na porta por volta de cinco horas da manhã, esperando o leite que vinha das fazendas que ficam nas redondezas de São Domingos das Latas. O leite vinha em latões de alumínio.
O Lorenço tava vendendo pêta, bolo-de-puba e cacetin. Os bolos estavam em uma forma de alumínio bem areada, cobertos com um pano branco, bem alvo. Acho que havia sido lavado com sabão de potassa e enxaguado com anil. Eu não comi nenhum bolo, não me atrevi.
Ele deve ter sofrido muito, o Lorenço. É um negro bem acentuado, que chega a ser cinza. Um tiziu. E ainda por cima, “Bilú-tetéia”, “Benditeufruto”. No interior isso pesa muito na vida de alguém.
Ainda por cima pobre.
Deus foi maldoso com ele. Eu acho!
Mas o lorenço possuía bons adjetivos, era honesto e tinha dignidade, não andava a fazer conjecturas da vida alheia, como outros bilús-tetéias de minha cidade, que além de mitômanos são como necroses que se alimentam de vidas alheias e só têm fim quando amputadas. O Lorenço tinha honra.
Uso verbos no passado, mas não determinando que Lorenço tenha morrido, apenas porque há tempos não o vejo mais a oferecer suas guloseimas pelas ruas de minha cidade. Não sei mais de seu paradeiro.
O Lorenço era irmão do “Nêgo Nazaré”. O “Nêgo Nazaré” morava em uma travessa que começava ali na Samuel Monção e findava no “varjão”. Ele tinha muitos cachorros e um cavalo, que puxava sua carroça. A carroça do “Nêgo Nazaré” era uma espécie de mercearia ambulante, que ele usava para vender de um tudo. Rodava em todas as ruas de Marabá. Marabá nessa época limitava-se ao núcleo da Marabá Pioneira. Melancia, fava, abóbora, macaxeira, murici, mangas de todos os tipos, inclusive a buceta. Macaúba, querozene, fumo-de-rolo e carne de caça, eram alguns dos produtos ofertados por ele.
Muita gente diz que a carne que ele dizia ser de caça era, na verdade, de cachorro, mas ele afirmava que era ou de bode ou de capivara.
Não sei ao certo quem tinha razão se ele, ou as línguas maldosas.
Eu brincava muito na carroça dele, quando estava parada na porta de sua casa. Mas só quando ele levava o cavalo pra pastar lá no varjão, pois o preto era brabo. Metia medo e andava sempre com um teçado, pendurado por uma embira, no cós da calça . Brincava de me pendurar e passar o corpo por entre os braços, como um ginasta.
O cavalo dele peidava muito. Mas as pessoas diziam que era ele quem flatulava e culpava o cavalo. Mais uma vez não sei quem tem razão. Se ele ou as línguas maldosas.
Acho que era mesmo o cavalo, quem peidava, pois tem gente que gosta de falar mal da vida dos outros, só porque a sua própria vida é sem significância.
Ah, e o cavalo dele também cagava muito e infestava as ruas da cidade com seus montículos. Porém a merda do cavalo do “Nêgo Nazaré”, depois de secar ao sol e após passar por um processo de queima, ainda podia servir de estrume a adubar hortas de legumes e verduras. Diferente da vida de certos seres racionais que passam a vida a tentar denegrir a imagem de outros.
Moral da história: A merda do cavalo do “Nêgo Nazaré” tem mais valor que a vida de certas pessoas.
I’ll survive!
Ou melhor, por extenso, a cacofonia das palavras, desta frase, dão nome a certas coisas: I Will survive!
Saudades do “Nêgo Nazaré”.

Celso Santana

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