terça-feira, 13 de agosto de 2013

Antologia: Cidade Relicária e Graciosa

Cidade relicária e graciosa
Raphael Jonatham de Oliveira Soares





Ao marulhar do Tocantins é uma antologia de escritores marabaenses que tem peculiar característica de apresentar uma uniformidade temática, assim como uma maior aproximação geográfica entre os autores, que são todos da cidade de Marabá. Curioso o fato de apenas um dos autores ter nascido em Marabá: todos os demais tornaram-se marabaenses por afeto ou por vivência. Nem por isso esses marabaenses honorários são menos marabaenses.Se por um lado, a antologia Ao marulhar do Tocantins é mais uniforme em temática e quanto à proveniência dos autores, por outro lado possui imensa variedade no perfil, estilo e expressividade da escrita. Há no livro contos, crônicas e poemas, na maior parte das vezes cantando Marabá, mas sempre de modo muito diverso, dificultando muito uma generalização redutora do conteúdo do livro, o que nos obriga a falar um pouco sobre cada um dos escritores da antologia.
O texto introdutório é nos apresentado por Gutemberg Guerra, que é um observador arguto dos conflitos sociais existentes no passado e presente de sua cidade, em suas Cores de Abril, referência clara ao natalício do município. Em uma mistura de crônica com memória, e por que não poesia?, o escritor nos apresenta as feridas históricas do município, com a profundidade do sentimento humano da compaixão, e com a mesma humanidade, mostra-se esperançoso e pede as melhorias para a cidade, como pedido de aniversário.
Abílio Pacheco, organizador da antologia, já possui uma outra expressão poética para Marabá: a cidade viva em sua memória. Em suas quatro crônicas, nos apresenta uma Marabá colorida, e saudosa. Em Bragabá, a cidade está profundamente presente em uma memória vivíssima, mesmo que esteja distante. Uma praça, não-praça, improvisada é de uma memória ainda mais forte, que nos transporta à cidade do passado; há na crônica uma certa melancolia pelo tempo feliz que se foi. Já a crônica De querencismo e coisa tal, um tanto mordaz, demonstra o amor que o escritor tem por sua cidade de coração, ao ponto de a proteger dos diversos comentários maldosos que a ignorância é capaz de criar; uma das mais divertidas, e igualmente séria, do livro inteiro. Deixei para o final a crônica Casa da Cultura de Marabá: lugar de memória, minha favorita, que fala sobre esse monumento cultural que é a Casa da Cultura do município, e até me traz até uma pontada de inveja por não conhecê-la pessoalmente.
O segundo escritor do livro é o poeta Airton Souza, também marabaense honorário. As poesias do escritor cantam as belezas da cidade que o acolheu. Canta a beleza da natureza a partir de sua própria experiência arguta, com versos de grande fluência e fluidez, muito apropriadas para a sua temática favorita: a água. Não é de qualquer água que nos fala Airton, mas da água dos rios Tocantins e Itacaiúnas, os rios-mares que banham Marabá. Temos em seus poemas uma viagem pelos rios, ou o poeta observando-os, de tal modo que os rios também o observam e compartilham as experiências do poeta. Os rios guardam inúmeros segredos da vida na cidade. O poeta fala de ambos, ora de um, ora de outro, e não é capaz de se decidir pela beleza de um ou outro, terminando com o louvor ao SEU rio, o mais belo de todos os rios: o Tocaiúnas.
Ainda em ritmo de poesia, segue-se a poetisa Eliane Machado, vencedora recente do prêmio IAP de poesia. É a escritora mais intimista e de cunho mais “universal” dentro do livro, não falando diretamente de Marabá, mas refletindo sobre a vida. É a poetisa da primeira pessoa por excelência, como em Eu ou Total, tendo a própria existência como preocupação fundamental. Tem um cunho mais filosófico e reflexivo, hora de natureza epigramática como em Assim Falou Zarastruta (sic). Brinca com ideias e palavras em Ciclo e faz perguntas irrespondidas (seriam irrespondíveis?) em Lastro. Possui visivelmente uma expressão poética bastante variada.
Enquanto Eliane Machado é a poetiza do Eu, Francisca Cerqueira é a poetisa da própria poesia. Francisca brinca e rebrinca com a literatura, citando Caeiro e sua poética em Sensações, assim como é mais referencialista e constrói imagens bastante sensíveis, como em Os Bordados ou até mesmo em O Sonho. O seu Eu, quando aparece, é menos reflexivo e mais psicológico: não é um eu falando sobre si como na poesia de Eliane Machado, mas um eu desejando-se e desejando. Tanto em O Sonho, como em Inimigo Íntimo e Início e Fim podemos sentir um Eu real, possível e carregado de sentimentos e desejos.
De todos os escritores do livro, Valdinar de Souza é, sem dúvidas, o mais ferrenho defensor das belezas e qualidades de Marabá. Vemos a defesa e importância da cidade em seu aspecto cultural em Marabá e o concerto, defendendo a cultura boa e permanente em um mundo de cultura fast-food. Marabá, minha Marabá e Nostalgia são cantos saudosistas à Marabá do passado, bem como as belas coisas da Marabá do presente, assim como sua vivência nessa Marabá poética que é uma síntese bastante interessante de interior, com suas árvores e belezas naturais, e metrópole. Sua última crônica, Ver a praça, olhar o rio, é uma verdadeira poesia sobre a beleza dessa Marabá das belas paisagens naturais e urbanas; é praticamente um belíssimo convite a aproveitar essa Marabá duplemente poética: a Marabá real e a da imaginação.
A última escritora do livro, Vânia Ribeiro de Andrade, é a mais difícil de categorizar e explicar. Nos apresenta poesias, crônicas e contos. Possui um estilo bastante prosaico, mesmo nos versos, e ao mesmo tempo poético, mesmo em sua prosa. Fala de uma Marabá cultural e regional no poema Marabá, assim como explora os mitos da região em Monólogo, que é um texto bastante difícil de classificar.  Apela para a memória em Reminiscências, e trata do drama das aparências no conto Quitéria, um dos textos mais curtos e de maior densidade do livro. Finaliza com duas pequenas pérolas poéticas: Enigma e Flora, com uma jocosidade quase infantil, cara à autora, e talvez por isso mesmo, textos incrivelmente musicais.
A sensação que tenho ao fim do livro, como não-marabaense que sou, é a de pegar o primeiro transporte e imediatamente zarpar rumo à Marabá, se possível por via fluvial. Minha vontade maior é de pegar um grande barco e navegar pelos belos e aventurescos rios de Airton Souza, para conhecer a Casa da Cultura de Marabá de Abílio Pacheco, que já me tem surgido em sonhos. Quero me sentir como as personagens poéticas de Eliane Machado e Francisca Cerqueira, lembrar das histórias de Vânia de Andrade enquanto, assim Valdinar de Souza, leio um livro na orla em frente ao rio Tocaiúnas, este livro.
É só o que posso fazer para sentir-me menos pobre, por não ter, como esses escritores, nada para contar sobre uma cidade que, invisível, já conquistou meu coração. Este livro é um dos melhores presentes que se pode dar a Marabá, e, ao mesmo tempo, é o melhor presente que a cidade pode dar aos leitores que, como eu, não conhecem o seu encanto ‘relicário e gracioso’.





(*) Graduando em Letras (UFPa-Castanhal),leitor impulsivo, escritor e tradutor em exercício constante

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