sexta-feira, 5 de abril de 2013

Centenário com reflexão

Marabá sem anos
Jorge Luis Ribeiro
 
Temos o maltrato com a cidade que agride os olhos de quem não se acostuma. As ruas represadas de esgotos nus, o lixo acumulando espera, a periferia desleixada em crateras de abandono e ausência de um público poder que não trafega os relentos urbanos periféricos da dor, pobreza e desleixo. A indignidade rotinizada faz moradias ao relento e intempéries de promessas de porvir e vida melhor que reciclam mais esperas e desastres em omissão reincidente.
Nosso amor pela cidade politicamente maltratada, urbanamente vilipendiada em inépcia de gestão estética e humana beira ao desamor, às vezes. Mas não é a cidade ou o povo que em si reproduzem o mal-estar de nossos cartões-postais simbólicos, é o cancro político-econômico que perpetua há décadas as auto-benesses em desproveito da dignidade coletiva, da cidadania cotidiana, da estética urbana, da probidade administrativa. 
O desamor e descuido coletivo ou omissivo com a cidade que amamos quase impera, pois reproduz ondas do poder deseducador e ileso daqueles investidos do dever de gestão e de distribuição do cuidado, porque estão por demais imbuídos da inesgotável e imperiosa tarefa de enganar. Ao largo do executivo inepto, tivemos um legislativo perdulário, retórico e inútil, os quais, historicamente, têm se sucedido.
Todavia, não há como não amar Marabá, a despeito da classe política e economicamente dominante nociva e parasitária - em sua maioria e resguardadas exceções - que ainda dita os rumos e atrasos que devemos traçar.
Como marabaenses, chegados, nascidos ou nascituros, é preciso esforços e memória para reviver orgulhos de sermos Marabá. Mas porque? Bem... temos a nutureza que impassível lava a cidade, abraça a cidade por seu braços de águas e a fazem tão linda de espaço e tão resistente a cada verão ou inverno e a abraçaram enquanto houver rio e água. São tenazes como o povo estas águas; temos a memória encravada nos bairros esquecidos onde a cultura renasce e aflora pelas mãos e gestos de tradicionais compassos da poesia da história. Temos o povo, este estandarte perpétuo que sobrevive a reinos, oligarquias e poderes.
O povo que sempre faz em cada carnaval a quimera e a utopia de dias melhores. Marabá espera... pois, há que se ter fé nos trocadilhos do destino cevado à força e persistência: água mole em cabeça dura tanto bate até que ensina, ou fura. Podemos começar assim: Marabá sem anos, caminhemos entre o recomeço e o reviver...

Marabá – 04-04-13

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