quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Poemas do Centenário II

Foi assim!

Quando a féria da venda de “laranjinha”, vendidas no porto do Tibiriçá e na “feirinha”, lá da Silvino Santis, não dava pra comprar mais matéria prima e preparar mais do produto pra venda do dia seguinte, pois em alguns dias só dava mesmo pra comprar o arroz e o ovo, tínhamos de nos virar em outros afazeres, eu e meus irmãos.
Vender calcinhas, vestidos, saias e camisas, por exemplo, fabricados por minha mãe Terezinha, era outra das atividades que permearam minha infância, e a de meus irmãos, mas não era só isso.
Ah, são lembranças boas!
Percorríamos todo o varjão da Santa Rosa, a baixada da Magalhães Barata, Rua das tripas (Bartolomeu Igreja) e “Jadão”, lugares de gente humilde e meretrizes, nossos maiores fregueses, onde vendíamos esses produtos.
Nessas andanças conquistávamos algumas experiências e vivíamos situações inusitadas, como as brigas constantes entre as meretrizes, ou raparigas, como as chamávamos e algumas vezes entre os clientes destas.
Eram brigas violentíssimas para a mente de crianças de nossa idade, mas que terminaram fazendo parte de nosso dia-a-dia, onde eram usados, entre outros utensílios, giletes, facas e canivetes, além de algumas tesouras, pra minha mãe nunca contei que isso eu vi.
De tiros não lembro não!
Os mosquiteiros e cortinados, vendidos na Casa São Paulo de propriedade do Feizin Yassin, eram propagandeados nas ruas de Marabá, nas volantes do Salomão Amoury, como oriundos “diretamente das fábricas de São Paulo”, minha mãe sorria quando o carro passava.
Nessa época ainda não havia o Código de Defesa do Consumidor, acredito, pois senão o Feizin teria sido alvo de denúncias.
Explico; estes produtos eram fabricados por nós, minha mãe eu e meus irmãos, minha mãe em alguns momentos não dormia, atravessava noites a fio, pra poder dar conta da encomenda. Nós não aguentávamos o rojão.
Não nos importávamos com a mentira, ao contrário até gostávamos, pois vendia mais e, portanto, tínhamos mais peças a fabricar e consequentemente garantiríamos mais um pouco de comida na mesa.
Carregávamos os fardos enormes na cabeça, saindo da Rua Três de Outubro, aquela rua que desce ao lado do Clube de Mães, rumo ao Marabazin, ali no varjão e seguíamos pela Norberto de Melo passando em frente à Telepará e ao lado do Judith (colégio Judith Gomes Leitão), onde eu gostava de frequentar, para estudar e também para comer aquele arroz com jabá, de onde víamos as araras do Zeca Almeida, naquela casa enorme e linda, ali na esquina da Travessa Santa Terezinha.
A Praça Duque de Caxias, com seu coreto imponente e seus postes estilosos, (não sei que fim deram a eles), era de uma beleza singular, com bancos de granito.
Ela também foi palco de minha infância, mas apenas como passagem na entrega da encomenda dos mosquiteiros, e nos momentos em que a usava quando saia à cata de clientes pra engraxar sapatos.
É, tive minha caixa de engraxar também!
Lavei as caixas de metal lá do Bar do Codó, que eram usadas na fabricação de picolé, sujas de salmoura, espécie de líquido que garantia o congelamento do picolé e do sorvete. Isso me garantia além da gorjeta, o picolé de açaí, uma delícia.
Lembro com nitidez daquele cheiro da salmoura, entranhado até hoje em meu olfato, lembrança da infância...
Enchí bolas na “Lojas Econômicas”, lá na Antônio Maia, em época de natal.
Foi assim que conheci meu amigo Devaney, filho do dono.
Aqueles dias eram de muita alegria, pois era quando eu podia ficar perto de muitos brinquedos, muito dos quais só podia ter naqueles momentos, o cheiro do plástico daquelas bolas também me remetem a momentos felizes.
Claro que tive os meus brinquedos, comprados por minha mãe, eram meus!
Mas não eram tantos como ali na loja.
Minha infância foi assim, trabalhando, mais eu a tive e dela tirei proveitos, queria um dia poder repeti-la.
É, só sei que foi assim, parodiando João Grilo.
 
CELSO SANTANA

Um comentário:

Ana Léa Guimaraes disse...

Minha família e eu parabenizamos ao autor deste fabuloso texto.
Somos oriundos de Marabá, mas já faz muito que deixamos nossa terra natal. Somente nos resta as lembranças e a saudade.
Obrigada Professor Ribamar por suas palavras, que nos trouxe à memória tempos de nossa infância.
Com apreço,
Ana Léa Guimarães.