domingo, 17 de fevereiro de 2013

Oh que saudosa lembrança!


Uma praça, não-praça, improvisada

Em dezembro de 2010, quando enviei a crônica de aniversário, dentre as respostas recebidas uma foi de Miriam Leila, que transcrevo no post scriptum. A mensagem motivou esta crônica.

Cheguei a Marabá em 84, fazendo mais ou menos o mesmo caminho de muitos marabaenses, nascidos nordestinos como o fundador da cidade. Eu vinha de Coroatá, calma e pacata, lírica e idílica, poética... Embora tivesse pouca mobilidade em Coroatá, por ser menino agarrado em saia de vó, eu me divertia muito nas praças. Num raio de um quilômetro e meio eram seis praças. Nem sei o nome de todas. Recordo-me de todas e da forma como chamávamos algumas delas: praça da igreja, praça do triângulo, praça principal (com nome de político maranhense), da praça do atlantis...
As praças são esses espaços públicos que fazem parte de nossa história, nossa memória de afetos. Espaço de crianças brincarem, jovens passearem e namorarem, adultos descansarem do trabalho, pais levarem filhos para um divertimento semanal, idosos fazerem o tempo passar, ambulantes trabalharem, políticos fazerem campanha, estudantes fazerem gincanas, manifestantes fazerem barulhos...
Sempre gostei muito de praças. Eu-menino em Coroatá não me dava conta de tantos usos das praças. Depois que mudei para Marabá, todo retorno a Coroatá era um reencontro com as praças, as mesmas praças, mas modificadas. A cada viagem elas se revelaram outras para mim. São quase trinta anos e mais de quarenta retornos a Coroatá. O reencontro com as praças também se dava por causa do que faltava na minha Marabá da década de oitenta. Especialmente na parcela da Marabá onde eu vivia e por onde transitava: a Nova Marabá.
Marabá é uma cidade que nasceu na confluência dos rios Tocantins e Itacaiúnas (algumas versões apontam para o Burgo do Itacaiúnas, mas opto pela versão de mais circulação), onde Francisco Coelho instalou-se com moradia, comércio, depósito e salão de festas. O nome é em homenagem a Gonçalves Dias e ao poema “Marabá”, sempre declamado nos aniversários da cidade. Na confluência dos rios, surgiu o núcleo pioneiro, chamada por elipse apenas de Marabá, onde ficam os bairros mais antigos, como Santa Rosa e Cabelo Seco. Do outro lado do rio Itacaiúnas, fica o núcleo urbano da Cidade Nova e bairros como Novo Horizonte, Belo Horizonte e Liberdade. E, como alternativa as cheias constantes dos dois rios, o núcleo planejado, cujos bairros (exceto um) são chamados “Folhas”: a Nova Marabá, que segue o desenho de uma castanheira.
Morei na Folha 17 todo meu finzinho de infância e início de adolescência. Estudei da 5ª série ao término do Ensino Médio na Escola Dr. Gaspar Vianna e todos os dias passava pela TELEPARÁ, mesmo sendo o caminho um pouco mais longe. Toda a juventude da minha época devia fazer a mesma coisa. Eu lembro de ter passado por dentro do terreno antes da construção dos prédios, torres e ordenação de jardins. Toda a construção ocupa um perímetro não maior que 500 metros e os jardins devem ocupar cerca de dois mil e quinhentos metros quadrados se somarmos também o espaço destinado ao estacionamento externo. Era essa a nossa praça.
O nosso lugar de bate-papo, paqueras, encontros, namoros, diversão e lazer “eram os canteiros da antiga TELEPARA.” Em frente, a Folha 20, à direita a 16, em diagonal à direita a 21. Canteiros e estacionamentos, a nossa praça postiça, ficavam no declive do terreno. Curiosamente não tinha um banco sequer. E nós nos empuleirávamos nas muretas de contenção do aterramento, seja na parte inferior, já de frente para a rua, ou numa mureta em diagonal numa lateral do estacionamento. Tinha quem gostasse das escadas, já mais no alto. Cada uma tinha seu público e seu uso. A mureta frontal era para flertes e para conversas. A escada para estudar ou alternar-se no uso dos orelhões. E a calçada diagonal para os namoros, namoricos e transas.
A torre era o nosso farol, nosso norte, quase um totem. Visto de longe parecia sempre nos indicar o retorno para casa. O necessário e adiável retorno. Só mais um piada, ouve só mais essa... Acho que ela tá quase na minha. Hoje, vai dá. E nisso, só mais umas conversinhas, só mais uns beijinhos, e o tempo implacável, e o humor dos pais diminuindo, virando preocupação. Mas a TELEPARÁ (com sua letras de concreto no parte frontal no centro de um dos canteiros) estaria lá novamente, testemunha e cúmplice. A parte construída, de pé direito muito alto, parecia solene, serena, ora indiferente, ora protetora. A noite avançada guardava histórias avançadas. E as manhãs, sob a sombra gostosa do prédio frontal, acompanhava nossas reuniões de aulas sem professores. Nós sentávamos sobre a grama com cadernos e livros nas pernas, organizávamos seminários e fazíamos trabalhos, líamos, conversamos, começávamos namoros. Ô tempo bom sem google nem tablets nem net, mas de livros com cheiro de grama orvalhada, de cadernos com arames rasgando as pernas e o colega ali falando alto, cuspindo, coçando a cabeça e as pernas. Ríamos, brincávamos, vivíamos... Os guardas ficavam loucos conosco nos orelhões telefonando para paqueras, namoradas, para centrais de atendimento, para coisas sérias e também para ouvir pãrã, pãrãrã, pãrãrã, ou pãrã-rãrãrãrãrãrãrãã, rã-rã-rã-rãããn, rã-rã-rã-rããn...
Tínhamos sonhos e vivíamos. Metas e pés nas gramas de nossa praça improvisada. Esses meninos de hoje devem passar impávidos à frente da nossa praça incidental. Nós, mesmo hoje, ainda nos acontece alguma coisa no coração quando vemos aqueles orelhões azuis, a mureta onde perdíamos canetas e lápis, as letras cnretas e a torre-totem. Marabá agora tem praças e praças. Belas, muito belas. Esses meninos de hoje certamente tem seus sonhos e suas vidas. Não como as nossas eram. Cada tempo, o seu intento. Miriam me diz que hoje os sonhos nossos devem ser mais coloridos. Não sei. Coloridos, sim. Porém coloridos como em sonho de sono profundo. Vivemos. Pés em areia e em vagas. Metas mudadas. Somos quem somos e nada de desilusão. Mas somos como gostaríamos de ser naquela época? Ou será que somos realmente o que desejávamos, assim como era verdadeira aquela nossa praça?

Belém/Bragança, 17 de Fevereiro de 2013.
Marabá, 1989, sentado na grama da telepará com um caderno de arame na perna,
hormônios explodindo desejos, mãos e pensamento no futuro

Abilio Pacheco, professor, escritor

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