terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

AMAT: Ainda soam os berros da derrota

O jornalista e advogado Ademir Braz analisa a eleição da AMAT

Amat: de rerum novarum ao dejà-vu da bola de meia
Ademir Braz

Aos 53 dias do seu governo, o prefeito João 23 já amargou uma derrota que qualquer observador político dava como certa. Até os buracos de olaria sabem que desde sua fundação por Haroldo Bezerra, na década de 90 do século passado, o eleitorado da Amat vota em quem lhe assegura privilégios, vantagens, quaisquer compensações.
No “quem dá mais?” da maioria dos prefeitos-eleitores Jatene e sua máquina estatal prometeu asfalto – a panaceia com que prefeitos liliputianos pensam assegurar a sobrevivência política. Salame, sem cacife, tentou reanimar – em vão - a fantasia da emancipação de Carajás – apenas um sonho que a sensatez arquivou até que condições objetivas nos permitam desarquivá-lo.
Salame perdeu. E perdeu feio: 11 votos a 25. Um solitário voto em branco assinalou o protesto anônimo contra todos os arranjos.
No dia seguinte João 23 sacou a metralhadora e disparou suas balas de festim no vencedor, (Sancler Ferreira, que encabeçava chapa única, manipulada por Jatene); nos que o elegeram; em Simão Jatene; e, por que não?, na Amat que antes não queria e depois mudou de ideia.
“O prefeito de Tucuruí , diz em nota João 23, não moveu uma palha na luta pela criação do Estado de Carajás, disse Salame em nota depois da derrota. Não participou de um comício, de uma reunião sequer. Nem mesmo no seu município. Não por acaso foi justamente em Tucuruí que tivemos a menor votação no plebiscito. Cerca de 66% dos votos, contra mais de 95% na maioria dos municípios da região. Não seria justo que exatamente esse prefeito se tornasse presidente da Amat, que tem no seu estatuto a luta pela criação do Estado de Carajás como prioridade.
Mais grave ainda é que sua candidatura passou a ser articulada diretamente pelo governo do estado, que liberou secretários para montar acampamento em Marabá oferecendo asfalto para os prefeitos votarem na sua chapa. Vários prefeitos confessaram este fato. Um outro chegou a dizer que sua fazenda foi invadida e se não votasse no candidato do Governo, a polícia não iria retirar os ocupantes de sua propriedade”.
Nem a Amat escapou: “perdeu importância. Deixou de unir os prefeitos para lutar pelo Carajás, pela hidrovia do Araguaia Tocantins, pela pavimentação de nossas estradas, para se impor diante do Governo do Estado e exigir tratamento igual ao que é dado à prefeitura de Belém. Só na data da eleição da Amat ela volta a ter alguma importância como moeda de troca para migalhas, para promessas na maioria das vezes não cumpridas”.
Como se vê, as trombetas de Jericó não deixaram pedra sobre pedra. Mas faltava o grand-finale: imediatamente João 23 retirou Marabá da Amat que ele não queria, mas queria.
Dessas coisas novas, eu fiquei com uma sensação de dejà-vu. Deve ser coisa de idoso, fustigado por lembranças despertadas pelo centenário da cidade. Eu me lembrei com insistência dos tempos de infância, quando os peladeiros de rua j0gavam em qualquer pedaço de chão disponível e usando até bola de pano, confeccionada com meia velha e mulambos. Dividiam-se em grupos proporcionais à quantidade da turma na grade de espera, colocavam pedras demarcatórias do gol e tinham regras que dispensavam a intervenção de juiz. Macaca não valia, acabava em briga, rixa, fim de amizades.
Um gol na partida, e o grupo perdedor saía, entravam outros “times” por ordem de chegada, e o negócio rendia até que o sol esfriasse, quando quase todos corriam para o banho no rio.
Isso acontecia todo santo dia no Granito, Granitim, e no buraco onde construíram mais tarde o Armazém Paraíba, na Praça Duque de Caxias, e ali depois da ponte atrás da igreja do São Félix onde havia no meio da rua um cajueiro deitado no chão e copa acima das casas, e na frente da casa Amim Zalouth, perto do Tocantins, onde inventaram de construir a Conab, fechando a janela para o rio.
Então começaram a surgir os “granfos”, como chamavam os peladeiros àqueles filhos de comerciantes endinheirados que chegavam ao campinho com jogo de camisas no ombro, bola oficial debaixo do braço, devidamente equipados com a camisa 10, tornozeleira e calções caríssimos.
Autossuficientes, escolhiam a dedo os que achavam os melhores, uniformizavam-nos e tomavam conta da pelada. Ruins de bola, não demoravam muito estavam sentadinhos fora do campo, esquecidos, empacotados e reluzentes, a olhar os craques e suas jogadas fantásticas. Quando se davam conta que não eram mais sequer lembrados e não faziam falta alguma, pediam as camisas de volta, tomavam a bola e acabavam com a brincadeira. Até que voltasse a pelota de pano a circular entre algazarras e descamisados.
Pensando bem, talvez não tenha nada a ver uma coisa com a outra, as peladas de antigamente e os sucessos políticos da atualidade. Mas que parece, parece.
 
------------------------------------------
 
 

Nenhum comentário: