domingo, 1 de julho de 2012

Na posse da Academia de Letras!

DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS SUL E SUDESTE PARAENSE-ALSSP


Senhores, Senhoras, conversão que no meu intimo diria, meus camaradas, meus amigos, gente desta terra, como já cravou tão singularmente o poeta maior destas plagas Ademir Braz.

 Confesso como minha limitada “profissão de fé” de ser poeta, esse não é um acontecimento vulgar, acometido de uma conjuntura de temporalidades abstratas alheia a outros ritmos da nossa vida societária, ele é como em outros casos, da arte, autônomo e por isso mesmo ele implica uma correlação que diria nessa quadra histórica favorável mais não menos cética, duvidosa e infalível na construção das misérias humanas. Eu, um dos “homens quase feitos”, mas odiado nos círculos de poder dessa região por pertencer ao MST chego a Academia de letras do Sul e Sudeste Paraense.  Os camponeses são minha primeira casa, minha primeira luta!

 Chego a Academia pelas mãos de muitos, de todos vocês houve necessariamente um embrião de convergência fluido e imaginado desde antes, até relutei admitir tal importância de assumir uma cadeira nesta casa de sapiência para depois ser convencido não por modismo e ou promessa a palmilhar mais pelo que significa essa reunião de pessoas, ainda que no contraditório concorremos para obter uma moral da objetividade artística em situação bem diferentes, porem não menos importante, esse entendimento de que cada um participa com o seu ímpeto criador, com o seu talento, seja nesse exato momento a nossa melhor potencia que caracteriza a feitura dessa Academia. E digo por essa ocasião, chego a Academia pela insistência do poeta Ademir Braz, que sabe (que do chão se levantam, homens, livros, aves) em literatura a minha melhor amizade. Pela fantástica atenção dada a mim pelo Eduardo Castro, pelos que analisaram meus livros publicados.

 No entanto, uma advertência, tenho desleixo por mitos e sectarismo literário. Manifestei esse meu cuidado na apresentação de um livro publicado recentemente da Poeta Diva Lopes, em imperatriz do Maranhão. “Estava me perguntado, porque a poesia tornou-se para nós um artefato e os poetas nulas opiniões poéticas? Embora a peleia seja antiga, demasiadamente antiga. Desde a necessidade da arte, há algo que vai da obstinação, da transformação da poesia num semi Deus, religião à parte, aquela que no final encontra ela mesma, e a sua essência radical, de que a poesia é aquela que se cumpre, numa denegação da primeira. Ou tentada a ser uma e outra se disvecila. Há poucos muito poucos poetas da transição, aqueles, cuja meta não é torná-la um objeto estranho, um farol apontado para um espaço de pedras e dogmas, mais associá-la com máxima potência, de agitá-la rente aos portões dos costumes – uma verdadeira moral da objetividade artística- como afirma J.M Ibáñez Langlois.”

 “A objetividade artística nesse caso não é contemplar, enfadar o mundo de imagens rotineiras, mais oferecer algo novo, que suprima a medíocre ordem das coisas, pois como se sabe, a ordem é sempre uma construção e o medíocre é a representação das misérias humanas. Mas, o ser humano, é um ser social de atividade, de prática social, ou como assiná-la Lukac´s –de práxis- então não cabe aos poetas só o simulacro, mas, pensar, exigir com todos os ritmos, -com a verdadeira moral- o ramo da beleza para não mudar nada, ou simplesmente depois de tanta luta aceitar o agnóstico, o lado imutável, o que lhe renderia, diante de qualquer circunstancia o peso de o fim, sem progressos para além do que é aceitável. A poesia não é religião, muito embora religião entendemos espírito, é e só pode ser isso, reflexo necessário, consciência, catarse, acrescentaria!”

 Chego a Academia, as vésperas de completar trinta e cinco (35) anos, vinte (20) destes membro do MST minha maior escola literária. A invenção da condição humana vem da luta, da sua dolorosa experiência de emancipar-se. E sei, da explicável luta ideológica na sociedade sobre o papel da organização que faço parte. Que creio um dia conversaremos numa demorada ponderação de argumentos, as compreensões exigem praticas políticas e são para eles membros da minha geração, que estão em luta, morando em Assentamentos de Reforma Agrária e em acampamentos, na grande região Carajás e em todo o País, muitos deles assassinados, como o Onalicio Araujo Barros, o (Fusquinha) Valentin Serra, Oziel Alves Pereira, que dedico essa minha posse na Academia e com igual respeito a todos e a todas que se fazem presentes. É bem verdade que as minhas ambições de homem, de militante político e de escritor não cabem na Academia de Letras mais aqui faremos junto o que ela está sendo e o que pode vir a ser guardiã do melhor espírito da nossa época e das nossas inventividades. O que é cultura senão como escreveu Goethe a “mistura de historia com poesia”.

 Mais afinal o que constitui minha poesia e minha condição de escritor? Em poucas palavras,  minha poesia constitui o melhor que pude fazer com certo zelo individual e vivencia coletiva feita de uma condição quase espartana, humilde e despretensiosa, não menos resistente as agruras e dificuldades, de ser o que os críticos e os leitores médios e comuns costumam saudá-la como novidade. Em verdade nunca me trouxe aborrecimentos e contenta-me suas glorias cotidianas, de serem lidas em voz alta, de “ganharem corações e mentes”, de estar ai, junto aos meus camaradas, de mãos dadas com os que precisam de poesias. Nelas estão longos momentos de reflexões, minha posição do mundo, aprendizado de longa data, -a revolução como meio a cultura como fim- debates sobre estética literária, travadas com os clássicos (minha adorável angustia da influência), e com o meu tempo presente feito de carne e osso. Elas estão sem obedecer a dogmas do mercado ou regras citadinas, há nelas um fio condutor, da necessidade da arte, de que a poesia nos duplica, a arte nos duplica. Por isso mesmo que a minha condição de escritor não pode ser outra, está ligada a idéia de que poeta só pode ser “aquele que cria sua própria forma de poetizar”, eis ai, minha incansável labuta uma arte compromissada com a emancipação humana.

 Por fim, não há prognósticos a ser mensurado aqui mas a poesia da fronteira, da civilização Tocantina/Carajás está sendo erguida, e não cabe aos poetas, aos escritores, aos artistas de todos os ergos o jogo duplo. Elevar a poesia da região a outro patamar é uma condição inegável. “arte nova desse encontro novo, encorpados de afirmação e negação” Ou como exemplificou o mais criativo dos revolucionários Latino Americano, José Carlos Mariategui, do qual peço licença para mudar o sentido do seu argumento aplicando-o a esta premissa histórica, do lado de cá, “a nossa poesia não pode ser cópia, nem decalque, ela tem que ser uma criação heróica”. Imagino eu, ser o maior e o melhor dos desafios dessa instituição literária, que agora tomo parte, não sem antes anunciar o cânone da literatura paraense e Amazônico que tomei para ser patrono, na cadeira de nº 16 dessa Academia: Dalcidio Jurandir.

 Diz ele:

 "Todo o meu romance distribuído, provavelmente, em dez volumes, é feito, na maior parte, da gente mais comum, tão ninguém, que é a minha criatura grande do Marajó, ilhas e baixo amazonas. Fui menino de beira de rio, do meio do campo, banhista de igarapé. Passei a juventude no subúrbio de Belém, entre amigos, nunca intelectuais, nos salões da melhor linhagem que são os clubinhos de gente da estiva e das oficinas, das doces e brabinhas namoradas que trabalhavam na fabrica. Um bom intelectual de cátedra alta diria: são as minhas essências as minhas virtualidades. Eu digo tão simplesmente: é a farinha d água dos meus bijus(sic). Sou um também daqueles de lá, sempre fiz questão de não arredar pé de minhas origens para isso, ou melhor, para enterrar o pé mais fundo, pude encontrar uma filiação ideológica que me dá razão. A esse pessoal miúdo que tento representar nos meus romances chamo de aristocracia de pé no chão.”

Obrigados a todos e a todas.

 Charles Trocate

Marabá

30 de junho de 2012

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