quinta-feira, 2 de junho de 2011

Carajás em debate! (5)

O Pará é o maior


João Martins Neto[1]


Até parece que o nome Pará é pequeno. Tem apenas quatro letras, mas de um significado grandioso. É de uma pretensão igualmente grandiosa. Quase tudo que se refere a esta unidade da federação parece que tem que ser maior do que nos demais estados brasileiros. Encostado na parte de cima do mapa, o Pará é uma das 27 unidades federativas do Brasil. É o segundo maior estado do país com uma extensão de 1.247.689,515 km², maior que Angola, país africano. Dividido em 144 municípios é o mais populoso da Região Norte. Seria talvez por isso que quase tudo nesse estado indica ser demasiado grande? Listaremos aqui alguns. Grandes, ruins, pequenos, bons, maléfico ou benéfico. Para alguns, para outros.
Alguns pensam e falam que este estado é grande demais. Resolveram então dividi-lo em três pedaços. A Câmara dos Deputados já aprovou o plebiscito. Querem fatiá-lo em Pará, Carajás e Tapajós. O que mudará para o povo? Só a história dirá.
O certo é que a grandiosidade parece ganhar relevo. Se for referendado a divisão do estado, o certo que cada um desses novos estados continuará com a sua mania de grandiosidade. Filho de peixe, peixinho é. Não é por menos que os acontecimentos ao longo da historia tem condições de elevar ou denegrir a imagem do paraense na mídia e junto à opinião publica. Dos paraenses ou de alguns paraenses? Mas o certo que o estado do Pará começou sendo o segundo maior estado da unidade federativa do Brasil em extensão territorial e detém o título de maior possuidor de ilha fluvial do mundo. Quem nunca ouviu falar na Ilha de Marajó? O Pará possui uma das maiores hidrelétricas do mundo a começar pelo tamanho do lago.  A barragem de Tucuruí tem 2.430 Km². Mas o Pará está marcado a ser um dos estados com maior número de hidrelétricas e uma população camponesa condenada pelas barragens. Pelo mapa das barragens do Ministério de Minas e Energia o Pará vai virar um dilúvio. Mas Noé provavelmente não aparecerá com sua barca para socorrer os desvalidos. O maior continuará sendo maior.
O Estado do Pará vem representando sua grandiosidade desde o tempo do Brasil Colônia. Foi no estado do Pará que aconteceu o maior genocídio de populações indígenas; foi nesta unidade da federação que houve também o maior numero de índios escravizados da história. Quem sabe se não foi por isso mesmo que aconteceu nesse estado uma das maiores revoltas populares denominada Cabanagem no período do Império? A Guerrilha do Araguaia permanece na memória de muitos brasileiros: homens e mulheres. Foi um episódio que ganhou o mundo! É no Pará que existe o mercado Ver-o-Peso, uma das maiores feiras livres, cartão postal de Belém. Não é grande?
A grandiosidade do estado do Pará e da região da Amazônia é demonstrada desde quando os europeus aqui colocaram os pés pela primeira vez. Foi o inicio de sua exploração. Começou sendo um dos grandes produtores de extrativismo: cacau, baunilha, canela, salsaparrilha. A borracha extraída da seringueira (Hevea brasilliensis) e do caucho (Castilloa ulei) e em seguida passou a ser o maior produtor de castanha-do-pará, produto conhecido inclusive mundialmente. Grande foi o sofrimento dos povos indígenas.
É no Pará também que existe a maior reserva mineral do mundo. É o atual maior exportador de ferro do Brasil. Todos os dias milhões de toneladas saem da Serra de Carajás. A cratera a onde existia a serra de minério já é uma das maiores do mundo também. O Pará está entre os maiores produtores de ouro. Serra Pela que o diga! A quantidade de garimpeiros que sofreu também é maior.
Até ai parece que está tudo bem. Pode até ser! Mas o Pará é o estado onde se tem o maior número de latifúndios improdutivos embora que seja considerado o maior exportador de boi em pé. Mas casado à pata do boi está grande parte do desmatamento e do trabalho escravo. Não é por menos que o Pará é considerado um dos campeões do desmatamento. Mas os maiores do Pará não deixam de vangloriar que é o estado que mais se exportou madeira nobre, em especial o mogno. Mas é o maior estado onde não se repõe a floresta nativa.
Além disso, o Pará foi um dos estados que mais se beneficiou com recursos dos incentivos fiscais da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) em projetos agropecuários, mas foi também no estado do Pará que mais se ouviu falar em desvio de recursos públicos dessa instituição.
Segundo o Mapa da Violência do Conselho Nacional de Justiça, divulgado recentemente, a cidade de Marabá, no sudeste do Pará é uma das cidades brasileiras mais violentas. Mas Itupiranga e Jacundá, tão minúsculas são de números grandes. E quem não se lembra de Rio Maria nos anos 80 e 90? Estão também entre as cidades com taxa de homicídios volumosos. O Pará é ainda considerado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o campeão em utilizar mão-de-obra escrava. Todo ano está no pódio da escravidão contemporânea. Também é o campeão em assassinato de trabalhadores rurais em luta pela posse da terra, inclusive de religiosos e defensores dos direitos humanos. As informações da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Ouvidoria Agrária do Ministério do Desenvolvimento Agrário são cada vez mais alarmantes e assustadoras. Como o Pará é maior!
Quase todos os que foram assassinados haviam denunciado às autoridades que sofriam ameaças de morte. Muitos inclusive estavam incluídos em uma lista dos marcados para morrer. Destes alguns nomes conhecidos avolumavam as páginas de renomadas organizações nacionais e internacionais de direitos humanos como a Comissão Pastoral da Terra, o Comitê Rio Maria, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Terra de Direitos, a Anistia Internacional, a Comissão de Direitos Humanos da OEA, entre outras.  Entre os assassinados estão os sindicalistas e mártires como Raimundo Ferreira Lima (o Gringo), José Dutra Costa (o Dezinho), João Canuto de Oliveira e seus filhos, Paulo e José Canuto, Expedito Ribeiro de Souza, Renan Ventura, Belchior Martins da Costa, os advogados Gabriel Pimenta e Paulo Fontelles, as religiosas Irmã Adelaide e Irmã Dorathy Stang, e recentemente o casal extrativista José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo grandes defensores da natureza e da vida.
É no estado do Pará que também aconteceu o maior e mais cruel massacre de trabalhadores rurais da história conhecido como “Massacre de Eldorados dos Carajás” quando 19 sem terras foram mortos pela Polícia Militar.
Grande parte das mortes foi anunciada, premeditada e a maioria das autoridades estaduais, municipais e federais sabia. Coincidência ou não as mortes de maiores repercussões aconteceram durante os Governos do PSDB. Parece que os fatos se repetem. José Claudio e Maria do Espírito Santo foram mortos após denunciarem várias vezes às ameaças que sofriam inclusive um atentado. No entanto as autoridades dizem nada saber. Parece que fecharam os olhos e os ouvidos. Outra “coincidência” foi fato de o casal de ambientalistas terem sido assinados justamente nos dias em que a Câmara dos Deputados votava o novo Código Florestal Brasileiro. Houve ligação entre os fatos?  Ou seu assassinato tenha sido apenas uma demonstração de poder daqueles que são contra a natureza e visão unicamente o lucro?  Este é um poder que há muito tempo vem criminalizando os movimentos sociais, em especial os movimentos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, inclusive aqueles que defendem a floresta e uma vida melhor para todos. 
Este crime bárbaro aconteceu em um momento em que a mídia divulgava o maior escândalo jamais visto no legislativo estadual. Poderia este fatídico desviar a atenção e o foco do escândalo da Assembléia Legislativa? O Pará é grande também nisso! Decerto uma coisa ninguém duvida: foi um crime de encomenda. Não bastou a exposição dos corpos à beira da estrada vicinal durante horas. Os pistoleiros mutilaram uma das orelhas de José Claudio e levaram como prova do crime. A opinião publica nacional e internacional está aguardando as respostas das autoridades brasileiras. As dúvidas quanto ao trabalho sério e competente por parte da Polícia Paraense está em evidência. Há muitas dúvidas e perguntas. Não basta a amplificação na imprensa afirmando toda hora que há contingente X ou Y fazendo as investigações. É preciso que os assassinos e mandantes dos crimes sejam presos e condenados. Próximo onde o casal extrativista foi morto outro trabalhador foi assinado. Não foi queima de arquivo o assassinato de Herenilton Pereira dos Santos?  O povo paraense está aguardando. O estado do Pará quer ser grande também na efetivação da justiça e na realização da paz.


[1] Líder comunitário, radialista e membro fundador da Rádio Comunitária Berokan FM – Rio Maria (PA).

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