quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Para refletir

*ANÁLISE SOCRÁTICA DOS TEMPOS ATUAIS*
*FREI BETO**
*
*Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei:
'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que
bom então de manhã você pode brincar dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou
ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas
de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa
de garota robotizada. *
*
**Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de
meditação!' *
*Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados,
mas emocionalmente infantilizados. **
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis
livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de
ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me
preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito.
Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha uma
maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da
subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
A palavra hoje é 'entretenimento' ; domingo, então, é o dia nacional da
imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se
apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que
felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante,
vestir este tênis,  usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O
problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira
o desejo, que acaba  precisando de um analista. Ou de remédios. Quem
resiste, aumenta a neurose.
O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse
condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver
melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis:
amizades, auto-estima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as
cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil,
constrói-se um shopping Center. É curioso: a maioria dos shoppings centers
tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de
qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro
sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira
pelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela
musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas
capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas
sacerdotisas.
Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque
pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no
purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...
Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma
mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou
apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados,
explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça
percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o
assediavam, ele respondia:
**- "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser
feliz !"**

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