segunda-feira, 30 de março de 2009

As teses de abril

Lênin chega à Rússia
Em 3 de abril, finalmente Lênin chega. É recebido por uma delegação do Soviete de Petrogrado e uma grande quantidade de operários e soldados. Cheidse, dirigente menchevique do soviete, faz um discurso de boas-vindas em que, referindo-se à necessidade de continuar a guerra, diz a ele que o dever da “democracia revolucionária” é enfrentar os inimigos de dentro e de fora.

Diante disso, Lênin lhe dá as costas e, dirigindo-se aos operários e soldados presentes, diz: “queridos camaradas, soldados, marinheiros, operários: me sinto feliz ao saudar em vocês a revolução russa triunfante, ao saudar-vos como a vanguarda do exército proletário internacional. (…) Não está longe o dia em que, respondendo ao chamado de nosso camarada Karl Liebknecht [9], os povos voltarão as armas contra seus exploradores capitalistas. (…) A revolução russa, feita por vocês, iniciou uma nova era. Viva a revolução socialista mundial” [10].

No dia seguinte, Lênin expôs ao partido suas posições através de um documento escrito que a partir deste momento ficou conhecido como Teses de Abril. Como disse Trotsky, “as teses expressavam idéias simples em palavras não menos simples, acessíveis a todo mundo. A república, fruto da insurreição de fevereiro, não é nossa república, nem a guerra que se mantém é nossa guerra. A missão dos bolcheviques consiste em derrubar o governo imperialista. Este se sustenta graças ao apoio dos social-revolucionários e mencheviques, que por sua vez se apóiam na confiança que as massas populares depositam neles.

Nós representamos uma minoria. Nessas condições não se pode nem sequer falar do emprego da violência de nossa parte. É preciso ensinar as massas a desconfiar dos conciliadores e defensistas [11]. É preciso aclarar a situação pacientemente. O êxito desta política imposta pela situação é certo e nos conduzirá à ditadura do proletariado, e, com ela, à superação do regime burguês. Romperemos completamente com o capital, publicaremos seus tratados secretos e chamaremos os operários de todo o mundo a romper com a burguesia e pôr fim à guerra. Iniciaremos a revolução internacional. Só o triunfo desta consolidará o nosso e assegurará o caminho para o regime socialista” [12].

As teses de Lênin foram publicadas no Pravda apenas com sua assinatura. Nenhum dos dirigentes bolcheviques quis assinar com ele. Trotsky, que, por sua vez, vinha defendendo as mesmas posições, estava preso nos EUA. Os dirigentes bolcheviques estavam escandalizados, não entendiam o que acontecia com Lênin. Como podia ter posições tão sectárias frente ao governo que havia surgido da revolução e que as massas olhavam com simpatia? Como falava em derrubar o governo, se reconhecia que os bolcheviques eram uma minoria?

A essas posições políticas se somavam as teóricas: como Lênin defendia a ditadura do proletariado? Os bolcheviques sempre haviam defendido “a ditadura democrática de operários e camponeses”, não a ditadura do proletariado. Quem defendia a ditadura do proletariado era Trotsky. Lênin havia se transformado em trotskista?

Essas dúvidas teóricas tinham fundamento, já que era certo que Lênin, até esse momento, nunca havia falado de ditadura do proletariado. Mas, como ele mesmo diria mais adiante, “ninguém pôde fazer uma grande revolução sabendo de antemão como ela haveria de se desenvolver até o fim. De onde iria tirar essas previsões? Dos livros, não, porque esses livros não existem. Só a experiência das massas poderia inspirar nossas decisões”.

E essa experiência mostrou que a revolução russa não deu origem a uma ditadura democrática de operários e camponeses, mas sim a um regime de duplo poder entre classes antagônicas: a burguesia e o proletariado. Diante desta disjuntiva, Lênin não ficou preso a seus velhos esquemas e não teve a menor dúvida: era preciso enfrentar o poder burguês para impor o poder operário.

A explicação paciente
Lênin era totalmente consciente do caráter minoritário dos bolcheviques. Por isso estava totalmente contra ações aventureiras, elitistas, para brigar pelo poder. Mas, ao mesmo tempo, sustentava que para deixar de ser minoria, para ganhar o movimento de massas, não se pode capitular a suas ilusões, é preciso dizer a verdade, ainda que doa. Era preciso explicar pacientemente que o governo provisório não ia fazer um acordo pela paz e que era falso ter de ganhar a guerra junto aos aliados imperialistas para defender a revolução. Era preciso explicar pacientemente que, para defender a revolução, haveria que derrubar o governo, impor o poder dos sovietes e impulsionar a revolução socialista mundial.

Apoiando-se na base operária, Lênin saiu a dar a batalha política em seu partido, e conseguiu corrigir a orientação equivocada. A nova política começou a ser aplicada e essa explicação paciente começou a dar frutos. Os bolcheviques começaram a ganhar influência, o que lhes permitiu cumprir um papel dirigente nas chamadas “jornadas de abril” (maio, segundo o calendário ocidental), onde se deu o primeiro enfrentamento operário contra o Governo Provisório.


NOTAS:
1. Nome pelo qual era conhecida a fração de esquerda do Partido Socialista russo, dirigida por Lênin. Posteriormente adotou o nome de Partido Comunista.
2. Teses de Abril, escritas por Lênin em abril de 1917, para tentar orientar os bolcheviques frente à revolução.
3. A revolução russa, Leon Trotsky.

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