terça-feira, 28 de outubro de 2008

"PROGRESSO" E "DESENVOLVIMENTO"

Amigos,
Mais uma ofensiva da MENTIRA do "progresso" e do "desenvolvimento".
Cavernas "inúteis" de que ponto de vista? Crescimento econômico a qualquer custo é o motivador para mais esta ofensiva do capital.


Projeto ameaça 70% das grutas do país
MATHEUS PICHONELLI
THIAGO REIS
da Agência Folha25/10/2008 - 10h41

Cerca de 70% das cavernas do Brasil correm o risco de destruição.
Hoje, as 7.300 já identificadas são protegidas por um decreto
assinado em 1990. Nos próximos dias, o governo federal deve alterar a
norma, após dois anos de pressão de empresas, sobretudo mineradoras e
hidrelétricas, que vêem nas grutas um empecilho à expansão de seus
empreendimentos.
A minuta, enviada na semana passada para a Casa Civil, autoriza, na
prática, que cavernas que não sejam de "máxima prioridade"
sofram "impactos negativos irreversíveis" .
Isso significa que cavernas que estejam em outros três novos
critérios poderão ser alteradas. Grutas com "alta relevância", por
exemplo, poderão ser destruídas desde que o empreendedor se
comprometa a preservar duas similares.
Para formações com "média relevância", o projeto prevê a destruição
desde que o responsável pela obra financie ações que contribuam para
a "conservação e o uso adequado do patrimônio espeleológico
brasileiro" --sem especificar quais.
Já cavernas com "baixo grau de relevância" poderão ser impactadas sem
contrapartidas. O Ministério do Meio Ambiente terá 60 dias para
elaborar os critérios de relevância a partir da aprovação.
O Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração) diz que o novo decreto
trará avanços. "Essa indefinição, que dura anos, afastou
investimentos estrangeiros do país", afirma o presidente do
instituto, Paulo Camillo.
"Há cavernas belíssimas que, claro, precisam ser preservadas. Mas é
preciso criar um sistema para valorar o grau de importância dessas
cavernas, porque muitas são inúteis", diz Rinaldo Mancin, diretor de
assuntos ambientais do Ibram.
Segundo o Cecav (Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de
Cavernas), do Instituto Chico Mendes, a maior parte das cavernas
mapeadas no Brasil foi descoberta na última década. O Cecav e a SBE
(Sociedade Brasileira de Espeleologia) estimam que 70% das cavernas
possam ser destruídas com a nova lei.
Somente na região de Carajás, no Pará, onde atua a Vale,
pesquisadores patrocinados pela própria companhia descobriram mais de
mil cavernas que, segundo a empresa, impedem a exploração mineral.
A instalação de uma hidrelétrica pelo grupo Votorantim no vale do
Tijuco Alto, em São Paulo, também enfrenta restrições devido a duas
grutas localizadas na área a ser alagada, 450 dolinas (depressões em
terrenos calcários) e outras 52 grutas e abismos na área de
influência direta do projeto.
Para o secretário-executivo da SBE, Marcelo Rasteiro, o projeto, como
foi apresentado, é "nefasto". Ele diz que a importância das cavernas
não pode ser medida facilmente.
Livro para o passado
"Essas cavernas guardam registros do passado, trazem informações nos
campos paleontológico, arqueológico, biológico e geológico. Cada uma
é como um livro. A partir de alguns estudos, por exemplo, foi
possível descobrir se chovia mais ou menos na região em determinado
período. Isso é uma chave para entender questões como o aquecimento
global."
Rasteiro diz ainda que a análise sobre a importância de cavernas
deverá ser feita por consultores ambientais pagos pelas empresas, o
que pode gerar pressão para laudos favoráveis ao interesse
econômico. "Não há nenhum indício de que as cavernas estejam
atrapalhando qualquer setor da economia brasileira. O setor mineral
tem aumentado sua produção a cada ano."
Segundo Rita de Cássia Surrage, do Cecav, o órgão participou dos
estudos com os ministérios do Meio Ambiente e Minas e Energia nos
últimos dois anos, mas suas sugestões foram ignoradas no projeto
final.
"Eles querem algo fácil de fazer. Dizem que nossas sugestões eram
complexas. Mas não dá para entrar em uma caverna, sair e avaliar na
hora. Estudos são necessários. Vai acabar na mão dos Estados a
decisão de definir quais vão poder ser impactadas, sem critério
algum."
Licenciamento
A Votorantim diz que na construção da hidrelétrica no interior de SP
as grutas que serão submersas são "pequenas e pouco expressivas" .
Já a Vale afirma que não revela seu estudo sobre cavernas em razão
de "questões estratégicas" e nem comenta a possibilidade de
destruição.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o que importa é que as
cavernas realmente importantes sejam "conservadas e
valorizadas" . "Tudo está sendo discutido. Essa nova norma não
significa que tudo será destruído", diz a secretária de
Biodiversidades e Florestas, Maria Cecília Wey de Brito.

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