quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Entre jazigos e a capela: Uma visita ao Cemitério São Miguel

Fazendo uma reflexão sobre os significados mais gerais que estão em torno da morte como um acontecimento social, segundo algumas observações que dimensionam desde o velório até o sepultamento e posteriormente aos adornos que são constituídos na sepultura, tanto na perspectiva das construções dos túmulos, quanto na forma como estes podem simbolizar a partir do aspecto cultural, uma série de significados e seguindo uma tendência analítica de considerar as manifestações simbólicas na sua diversidade, temos o cemitério como palco de contextualização de uma nova incorporação de significados que nos apresenta uma realidade que de certa forma não está presente no cotidiano das pessoas.

Entretanto, no dia-a-dia se vê as funerárias realizando suas campanhas publicitárias para atrair clientes, como característica de venda de titulo de capitalização como se a morte fosse um produto, a comercialização de caixões passa a estar muito mais presente na vida das pessoas, por que o a lógica do capital imputa ao mercado esta participação. E nesse sentido, percebe-se a inclusão de cemitérios jardins de caráter privado, onde os sepultamentos passam a ter uma outra espetacularização, que torna o ritual como um ato de afirmação de identidade e do poder. Obviamente que as cerimônias procedem de acordo com a religião dos mortos, e sendo assim é fácil perceber nos túmulos como estas representações estão codificadas, tanto pela série de símbolos que desencadeiam a paisagem de um cemitério, quanto pelas diferentes referências que são feitas, de um modo geral nas sepulturas. Onde os túmulos são a presença marcante das inúmeras arquiteturas que define um cemitério.

Os ritos são de fato a resposta para a organização cultural, as pessoas se juntam e dão condição a expressão dos afetos e passam ajudar na construção dos significados. Mesmo que hoje já não se veja tanto o uso do preto em velórios, mas ainda tem um significado nas memórias das pessoas que apontam para o luto, pois a prática dos rituais que é inerente à existência humana tem também sofrido grandes mudanças, mas não deixa de existir com seus aspectos simbólicos semelhantes a cerimônias antigas.
Cabe aqui ressaltar a importância dos cemitérios como lugar de prática religiosa, apesar de que existem também um roteiro turístico para esses campos santos. Mas mesmo assim, os mortos não deixam de ser reverenciados, pois mesmo havendo elementos que primam por designar a beleza destes espaços, o cemitério apresenta uma dinâmica cultural diferente da que nos rodeia nos nossos passos dia-a-dia. Pois a noção do mundo dos mortos expressa nos jazigos com suas mais variadas caracterizações artísticas e a valorização dos sentimentos daqueles que já foram correlaciona um processo impactante, pois o que constituí a morte é a partida.

No caso do Cemitério São Miguel localizado em Marabá, sendo o mais antigo da cidade, apresenta a partir de uma leitura contida das imagens realizada in loco uma série de observações que nos leva a compreender alguns significados importantes para decifrar o que as iconografias e epigrafes representa para os familiares ou representou para o defunto. Nestas observações vale considerar que sendo um cemitério antigo, este ainda tem as características através dos túmulos onde preserva uma certa estrutura. Ainda que existam túmulos mal cuidados, isso também tem um significado. E neste caso a assimilação que se faz é a própria ausência de entes queridos. A essência material da cultura está no formato dos túmulos, como eles são expressivos ao evidenciar uma arquitetura que condiz com uma realidade histórica, portanto, constitui a beleza para uns, uma obra de arte para outros, meditação religiosa para os que se atém aos costumes cristãos e que neste caso é muito grande e expansiva essa noção.

Os túmulos com ostentação cuja ornamentação delineiam as flores, cruzes, anjos e santos e outros símbolos, vão proporcionando uma interpretação dos efeitos do poder e o apego pela religião. Podendo ser vistos como textos cuja linguagem passa uma mensagem simbólica. Essa representação permeia um universo cultural próprio, transmitindo significados peculiares, por exemplo, encontram-se epigrafes em túmulos onde as famílias expressam sua saudação ao morto fazendo referências bíblicas o que explica o desejo pelo alcance da glória eterna, manifestando o sentimento pela busca de uma paz eterna. A morte é um destino penoso para os seres vivos, traz angustia e sentimentos de tristezas. Porém, ao partir o indivíduo é reverenciado de diferentes maneiras, o culto a sua memória que são realizados através das oferendas, visita ao túmulo, missa de sétimo dia. Essas práticas integram socialmente as famílias, amigos e conhecidos do morto, fazendo do cemitério o lugar de reflexão da morte e da vida.
Nesse sentido, a produção do espaço do cemitério onde envolvem a localização dos jazigos, o cruzeiro e a capela contextualizam o campo santo como a cidade dos mortos, no caso do São Miguel não há uma ordenação espacial, mas mesmo assim o cruzeiro e a capela têm seu lugar definido no centro da “cidade”, já os túmulos são definidos por seus valores culturais e econômicos à medida que estes passam a ter tamanhos desproporcionais, o que incorpora a noção de propriedade privada, cuja demarcação do espaço vai afirmando o poder em face da identidade do morto. Essa relação de poder de um morto sobre o outro está caracterizada pelos monumentos e seus feitios que também tem um sentido político em torno de valores e práticas. Já as sepulturas de crianças geralmente impressionam o público, pois as intitulações comovem quando o nascimento e a morte estão aproximados. Foi à criança que não viveu por muito tempo ou já nasceu morta, e neste caso a imagem do anjo representa muito bem a criança.

Mas existem outras formas de versar a cultura dos mortos que é analisar também as categorias e conceituações que são faladas, designações como: ente querido, féretro, aqui jaz, mausoléus, sepulcro, sepultura, marcha fúnebre, homenagem póstuma, defunto, cadáver, velório, campos santos, anúncio fúnebre, jazigo, funeral, ritos fúnebres etc...Como cada uma dessas implica na cultura dos mortos para os vivos. Podemos então verificar como essas expressões se reproduzem e se atualizam, a partir de cada ato pós-morte, sendo as pessoas mais próximas responsáveis pela construção dos significados cuja produção da linguagem fúnebre baseia–se na prática ritualística. Por exemplo, no ato de velar o corpo, dando sentido a luz, o iluminar o corpo, aí a vela tem sua função e o velório passa ser o ato concreto deste ritual. Ao designar o morto como ente querido, isso passa a ter um significado importante para a família no sentido da perda, mas a essa projeção também extrapola o seio familiar, como uma afirmativa do sentimento que se tinha pelo aquele que em vida se chamou fulano de tal.

São essas conotações que nos provoca uma certa inquietação sobre os mortos que na sua plenitude passou dessa vida para outro lugar, na perspectiva cristã podem estar no céu ou no inferno. Mas que aqui produz tristeza, que não é apenas margeada pelos cânticos ou pelo toque da marcha fúnebre. Em alguns casos a tristeza pode ser instantânea e em outros o desespero toma conta de uma certa coletividade, por que o que prevalece é o sentimento da perda que é sempre dolorido, isso vai afirmando que a cultura dos mortos, ou seja, produzida nas categorizações acima citadas faz uma ligação entre os que aqui ainda permanecem vivos e os que partiram.
O cemitério não pode ser visto apenas de uma forma onde a tristeza, o desencanto demarcado pela morte ou lugar onde as pessoas visitam seus entes queridos que ali descansam, um outro olhar marcado pela significação que é absorvida por este espaço subjugará uma inclinação material da pessoa. Tornando um local de encontro onde à presença está associada à ausência, dando sentido a vida a partir da morte. Logo se percebe que há mudanças significativas nas construções dos túmulos que são mais recentes, mesmo assim dá para identificar a classe social e o credo religioso, porque estes são de fato o que mais expressa a identidade do morto. Portanto, o cemitério consolida um dos componentes da crença, que é a fé religiosa, ao assinalar os ritos, ao entoar cânticos e acima de tudo reverenciá-los numa perspectiva de que os corpos descansem em paz. Ribamar Ribeiro Junior

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