terça-feira, 7 de outubro de 2008

2008: eleições sem esperanças

SEGUE ARTIGO ANALISANDO AS ELEIÇÕES



Celso Lungaretti *

Houve eleições municipais no domingo. Sabemos disso porque fomos
obrigados a ir votar, ficamos sem o futebol dominical e não pudemos
tomar umas eoutras nos botecos.

Mas, faltava algo nas ruas: esperança. Ninguém dava mostras de
acreditar que algo mudaria, fosse quem fosse eleito.

Menos, é claro, os feios, sujos e malvados que disputaram vagas na
Câmara Municipal, movidos quase todos por ambições mesquinhas. Estes
se atiraram à luta com a sofreguidão de quem vê uma chance única de
subir na vida ou (os que buscavam a reeleição) manter-se num patamar
muito acima do facultado por seus reais talentos.

O desfile dessas figuras grotescas no horário eleitoral gratuito
parecia show de aberrações em mafuás da periferia. Pouquíssimos
sugeriam a mais remota possibilidade de servirem ao povo, já que
saltava aos olhos sua escassa competência e a escassez ainda maior de
caráter. Mal conseguiam dissimular que queriam mesmo é servir-se do
povo, dos cofres públicos e das inesgotáveis benesses do poder.

A principal conclusão a tirar-se dessas eleições já se sabia na
véspera: a fisiologia impera, não existindo mais nenhum grande partido
movido por ideologia. O PT, última tentativa nessa direção, hoje não
vê pecado nenhum em coligar-se com o PPS em 20,3% dos municípios
brasileiros, com o PSDB em 19,7% e com o DEM em 17,2%.

Se associar-se aos dois primeiros já embaça as distinções que deveria
haver entre situação e oposição, as alianças com o DEM constituíram
verdadeira ignomínia: o PT, que nasceu da resistência à ditadura de
1964/85, irmanando-se ao partido herdeiro da Arena, criada pelos
militares para dar aparência de legalidade ao jugo da força bruta.

De resto, ficou comprovado que o patrimônio político de Lula é pessoal
e intransferível. Sua popularidade sobe aos píncaros, mas não se
transmite ao PT e seus aliados, que tiveram desempenho apenas razoável
em grandes capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre,
além de amargarem derrotas sofridas em Curitiba e no Rio de Janeiro
(onde o prejuízo foi total, pois perdeu ao lado do pior dos
candidatos, depois que uma tentativa espúria de beneficiá-lo terminou
em tragédia) .

As freqüentes comparações entre Lula e Getúlio Vargas omitem um dado
importante: o segundo inspirava verdadeira devoção nos trabalhadores,
tanto que foi capaz de eleger até um poste (Eurico Gaspar Dutra),
quando impedido de disputar a eleição presidencial.

Já Marta Suplicy, peça-chave no tabuleiro de Lula, ficou exatamente no
seu índice habitual de trinta e pouco por cento, apesar de todo apoio
presidencial.

Pior: a arrancada de Gilberto Kassab em setembro indica que, quando o
eleitorado paulistano passou a interessar-se pelo pleito, inclinou-se
na direção do atual prefeito.

Será dificílimo, quase impossível, reverter essa tendência. Não é à
toa que dirigentes petistas já aconselham Lula a evitar um
comprometimento excessivo com a campanha de Marta no 2º turno.

Finalmente, evidenciou-se que está bloqueado o caminho para outro
partido repetir a trajetória do PT -- seja porque o otimismo da década
de 1980 cedeu lugar ao conformismo atual, seja por conta da decepção
causada pelo próprio PT, ao frustrar as esperanças que despertou.

A classe média, capaz de mobilizar-se por ideais, mostra-se amarga e
descrente. Por enquanto, o assistencialismo e o clientelismo estão
sendo suficientes para garantir apoios que contrabalançam o êxodo dos
melhores seres humanos.

Mas, já sem apelo para corações e mentes, Lula e o PT dependerão do
que puderem oferecer para as barrigas. Enquanto proporcionarem
melhoras materiais, mesmo que ínfimas, têm chance de perpetuarem-se no
poder.

Se a crise cíclica do capitalismo atingir um estágio mais agudo,
entretanto, já não haverá como manter essa sustentação, em última
análise, comprada. Aí vai lhes fazer muita falta a ardorosa militância
que sustentava o partido nos tempos difíceis e foi trocada pelos
interesseiros sempre em busca de partidos que os sustentem.

* Celso Lungaretti, 58 anos, é jornalista e escritor. Mantém os blogs
O Rebate, em que disponibiliza textos destinados a público mais amplo;
e Náufrago da Utopia, no qual comenta os últimos acontecimentos

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