quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

A VALE QUE INVANDE.....

“Salvemos a Amazônia”, assim publicou o panfletário periódico A Folha do Norte, há 38 anos atrás, em 22 de julho de 1967, referindo-se ao VII Congresso Nacional de Municípios, cuja conclusão principal dizia respeito à integração (ou início da desintegração?) da Amazônia. Segundo o periódico, o desenvolvimento da imensa região esteve sempre na preocupação de cada delegado da reunião. E a tese central de integração, de que foi relator o próprio fundador da Associação Brasileira dos Municípios, escritor Osório Nunes, foi aplaudida de pé no Teatro da Paz. E concitou os congressistas a que não deixassem morrer a palavra otimista e incentivadora de quantos brasileiros viessem, dos mais longínquos rincões da Pátria, dizer “presente” à batalha pela conquista da selva e de suas riquezas, da qual dependeria o próprio futuro da Nação.

Falava-se assim da fauna, do reino das onças pintadas, das capivaras, dos jacarés, dos guarás, da imensa variedade de aves, as mais belas do mundo. Falava-se assim da flora exuberante e variada, não com a paixão de Heródoto em Melpômene, fazendo a musa grega enveredar-se pelos bosques da tragédia, mas com uma paixão otimista e prática de quem sabia ser sua predestinação rasgar a mata virgem para descobrir-lhe o seio e desfrutar-lhe os encantos. Falava-se assim das riquezas imensas, do petróleo, do manganês, dos minérios raros que tanto necessitávamos às vésperas de nos tornarmos “potência nuclear”.

Falava-se assim da infra-estrutura necessária. Das estradas que precisavam ser construídas, dentre elas a Transamazônica e a Cuiabá-Santarém. Da Belém-Brasília que precisava ser asfaltada. Das frotas fluviais que precisavam navegar pelos milhares de igarapés, de furos, de afluentes gigantescos, levando civilização pelas estradas líquidas, autênticas veias por onde deveria correr o sangue do progresso. Da educação para o desenvolvimento, onde as escolas seriam em verdade instrumentos de integração do homem ao meio ambiente. Da saúde, clamando pela instalação de hospitais ou mesmo de simples postos ambulantes, instalados em pequenos barcos, visitando a gente sofrida do imenso interior, libertando-a das humilhantes e vergonhosas epidemias, originárias do sub-desenvolvimento.

Falava-se assim sem preocupação divisionista, sem querer enxergar duas, três, ou mais regiões amazônicas, quando só existia uma, há muito, esquecida e abandonada e clamando integração à comunidade nacional, através de um desenvolvimento uniforme e urgente. Reivindicava-se inclusive tratamento diferenciado na questão das isenções fiscais, atentando-se para interesses secundários e deixando-se de lado o que deveria ser a preocupação de todos os amazônidas, de todos os brasileiros: desenvolver partindo da criação de uma infra-estrutura; rasgando-se estradas; melhorando-se portos; construindo-se ou adquirindo-se frotas para o transporte fluvial; educando e zelando pelo homem. Somente assim poderiam ser atraídos os capitais necessários à abertura de clareiras no meio da mata virgem. Pensando na pátria ameaçada de perder esta imensa região, que corresponde a 60% do território nacional, se não fossem atendidos aos anseios de desenvolvimento do mundo moderno, super povoado e faminto, todos foram convocados na autêntica cruzada em busca do “tempo perdido”.

Hoje, a história se repete de forma inversa, pois temos de continuar gritando “Salvemos a Amazônia” não para integrá-la ao território nacional, pois que agora ela pertence a todo o mundo globalizado. Agora devemos protegê-la da desintegração e da degradação total, principalmente a humana, que é decorrente de problemas socioeconômicos históricos. É necessário o fortalecimento, a valorização, a educação e a conscientização do próprio homem. Esse auxílio se torna necessário, pois o flagelo da depravação, do apodrecimento, do suborno, da desmoralização se degenera em submissão e domínio pela força, especialmente na condição em que vive o povo brasileiro em termo de falta de saúde, educação e empregos. O cidadão comum, pobre assalariado, com o cérebro já depauperado pela pobreza extrema e pela falta de instrução é mentalmente alienado e sofre uma verdadeira lavagem cerebral pela propaganda sub liminar e informações tendenciosas e distorcidas, sendo privado, muitas vezes, da própria vontade e do livre arbítrio. É a cultura da desinformação, o jornalismo como porta-voz de interesses políticos e econômicos. Basta-nos observar os anais da história política paraense e, sem sombra de dúvida, iremos comprovar que os interesses políticos e econômicos sempre caminharam lado a lado com a história da imprensa no Pará. Tem-se um manancial de exemplos. De início, retornemos ao final do século XIX e início do século XX, período que compreende a consolidação do movimento republicano no Brasil. Retornemos, especificamente, ao ano de 1876, data do início de vida de um dos mais influentes periódicos da imprensa paraense. Trata-se do diário A Província do Pará, de propriedade, inicialmente de Joaquim de Assis, e, posteriormente, do pragmático político Antônio Lemos. Este último transformou A Província em um jornal eminentemente político e panfletário dos interesses de uma elite aristocrática que comandaria o Pará por um longo período. Era a chamada Oligarquia de Lemos, dona de terras produtoras de borracha, principal motor da economia paraense até o término da Segunda Grande Guerra.

Nesta mesma época, uma outra oligarquia, a cacaueira, tornou-se proprietária de um dos jornais que, ao lado de A Província do Pará, compunha o leque de periódicos de grandiosa influência. Falamos da Folha do Norte, periódico panfletário do político Lauro Sodré. A partir do esteio da Folha, Sodré realizava contendas com o objetivo de derrubar o poderio político de Lemos. O ringue político da época resumia-se no confronto de palavras entre a Folha do Norte versus A Província do Pará . Todavia, para se ter um vislumbre da gravidade da disputa, em 30 de agosto de 1912, depois de muitas reviravoltas políticas, os asseclas de Lauro ordenaram a incineração do prédio da Província, decretando, desta forma, o fim da Oligarquia de Lemos. Hoje, os embates entre jornais estão representados por O Liberal, de propriedade da família Maiorana, caciques de grande influência sobre a opinião pública e o Diário do Pará, pertencente ao deputado federal Jader Barbalho, notório político paraense reconhecido na imprensa nacional. Embora tenham sido criados como guarida essencialmente política, há muito ambos travam disputas de cunho comercial-político pela liderança de vendas e prestígio.

Nelson Tembra
Eng. Agrônomo
Consultor Ambiental
Belém/Pa

Nenhum comentário: